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Em tempos de crescente busca por alternativas ao petróleo, o Brasil reúne fatores ímpares para se tornar um dos principais fornecedores globais de energia limpa e renovável. Tal oferta pode se dar tanto pela exportação de biocombustíveis quanto pela capacidade de atrair empresas que buscam lugares com uma matriz energética sustentável para se instalar. É o caso dos data centers focados em inteligência artificial, que demandarão 3 trilhões de dólares de investimentos nos próximos cinco anos, segundo a agência de análise de risco Moody’s. Avaliar essas e outras oportunidades do país foi o objetivo do VEJA Fórum Energia, realizado por VEJA e VEJA NEGÓCIOS na segunda-feira 27, em São Paulo. O evento reuniu especialistas e executivos de algumas das principais empresas do ramo, do mercado consumidor e do setor financeiro.
Uma das áreas mais promissoras é a de biocombustíveis. As exportações de etanol e de biodiesel, que eram praticamente nulas em 2021, deverão alcançar 1,2 bilhão de litros neste ano, segundo Carlos Eduardo Hammerschmidt, vice-presidente do grupo de bionergia Potencial. “O biocombustível é a locomotiva do Brasil, ao lado do agro”, disse em seu painel. Tal ímpeto, porém, esbarra na letargia do governo. Sancionada em 2024, a chamada Lei do Combustível do Futuro estabelece que a proporção de biodiesel adicionado ao diesel fóssil suba para 20% até 2030. Embora a lei determine o acréscimo de 1 ponto percentual à mistura por ano, a progressão depende do aval do Conselho Nacional de Política Energética, que pouco se ocupou do tema. Com isso, enquanto a Indonésia alcançará um percentual de 50% de mistura neste ano e os Estados Unidos chegarão aos 20%, o Brasil está parado nos 15%. O resultado é que as 58 usinas de biodiesel instaladas no país operam hoje com 57% de capacidade ociosa.
O setor elétrico também enfrenta desafios. O principal é o curtailment — a interrupção forçada de geração das hidrelétricas para não sobrecarregar o sistema durante o dia, quando as usinas eólicas e solares estão em pleno funcionamento. Como poucas hidrelétricas são capazes de retomar rapidamente sua operação à noite, é necessário ativar as termelétricas quando ocorre o pico de demanda. “A situação é uma bomba-relógio”, afirmou Daniel Maia, executivo-chefe da empresa de energia fotovoltaica Athon, durante o fórum. Em algum momento, teme-se que os consumidores fiquem no escuro.
Outros países que vivem o mesmo problema armazenam o excedente de energia solar e eólica em baterias que, à noite, abastecem a rede e reduzem o risco de apagões. Trata-se, contudo, de uma solução que exige um elevado grau de coordenação entre as empresas e as autoridades que operam o sistema. O problema é que os entes públicos não estão alinhados entre si, o que preocupa companhias dispostas a investir no país. “Precisamos mostrar ao mundo que a governança do setor elétrico é efetiva”, disse Adriana Waltrick, CEO da SPIC Brasil, subsidiária do gigante chinês que prepara um aporte de 1 bilhão de reais na ampliação da hidrelétrica de São Simão, em Minas Gerais. “Isso ajudaria muito a atrair mais recursos para cá”, completou a executiva.
A falta de governança também preocupa os consumidores. “É muito perigoso quando cada um enxerga só o seu lado”, afirmou Anderson Baranov, presidente da Norsk Hydro Brasil. À frente de uma das maiores produtoras de alumínio do país, Baranov observa que a desarticulação leva o governo a concentrar os incentivos na geração e não no consumo de energia. Para não ficar na mão e obter alguma economia, quem pode aposta na autossuficiência. É o caso da Vale, que já produz toda a eletricidade de que precisa. “Isso nos garante muita segurança”, disse Rodrigo Lauria, diretor de descarbonização da mineradora.
Para as pessoas físicas, a independência virá a partir de 2028, quando poderão migrar para o mercado livre. Nesse caso, o alerta dos especialistas é para que o setor elétrico ajuste seu discurso e não frustre expectativas. “Não se deve apenas enfatizar o preço baixo do mercado livre”, afirmou Gustavo Cintra, diretor do banco BTG Pactual, em seu painel. “O maior valor que se pode oferecer ao cliente é a possibilidade de controlar seu contrato.” Ou seja: boa governança, previsibilidade e incentivos adequados são os faróis que podem iluminar o futuro do setor energético no Brasil.
Publicado em VEJA de 1º de maio de 2026, edição nº 2993