A moeda iraniana atingiu nesta quarta-feira, 29, sua cotação mais baixa desde a criação da República Islâmica: 1,81 milhão de riais por dólar no mercado paralelo. A queda de 15% em apenas dois dias pode parecer, à primeira vista, apenas mais um dano colateral dos ataques de Estados Unidos e Israel contra país. Mas esse número esconde uma história mais longa e mais profunda — a de uma economia que já estava em colapso antes que o primeiro míssil atingisse o Irã, em 28 de fevereiro.

Para entender a gravidade do momento, é preciso recuar alguns meses. Em junho do ano passado, o Irã já havia enfrentado um conflito de doze dias com Israel. O confronto foi breve, mas o estrago econômico foi prolongado: nos meses seguintes, o rial perdeu 60% do seu valor. A inflação de alimentos, que já era elevada antes, disparou para 64% ao ano em outubro e alcançou 105% em fevereiro deste ano. Itens básicos como pão e cereais ficaram 140% mais caros; óleos e gorduras, 219% no ano até março de 2026. Antes mesmo de os Estados Unidos entrarem na guerra, o Irã já vivia uma emergência econômica doméstica que ameaçava sua estabilidade social.

Em janeiro, a deterioração chegou a um ponto de ruptura. O rial despencou no intervalo de uma semana, provocando protestos generalizados em várias cidades. A crise cambial transformou-se em crise política. O regime respondeu com uma série de medidas que misturava controle de câmbio, subsídios emergenciais e um novo recorde: a emissão de uma nota de 10 milhões de riais, a mais alta da história do país, uma confissão implícita de que a inflação havia devorado as denominações anteriores – a cédula valia, no momento em que chegou às mãos da população, apenas 7 dólares.

A guerra que começou em 28 de fevereiro produziu um efeito paradoxal sobre a moeda: nas primeiras semanas, o rial se estabilizou. Não por força da economia, mas por paralisia dela. Com o comércio praticamente interrompido, o bloqueio americano aos portos iranianos e a quase total cessação das importações, havia simplesmente pouca demanda por divisas estrangeiras. A escassez de dólares no mercado paralelo foi confundida, por um momento, com estabilidade.

O cessar-fogo frágil que se seguiu desfez essa ilusão. Assim que a perspectiva de retomada econômica voltou ao horizonte — ainda que incerta —, a demanda por euro e pelo dirham dos Emirados Árabes Unidos disparou. O rial voltou a cair. Quanto mais o Irã precisa de dólares para importar alimentos, remédios e matérias-primas, mais o rial se desvaloriza, e mais caros ficam esses mesmos produtos em termos da moeda local.

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O governo iraniano tenta segurar essa espiral com as ferramentas disponíveis, ainda que claramente insuficientes. O regime mantém uma taxa de câmbio subsidiada de 285.000 riais por dólar — menos de um sexto da taxa de mercado — para a importação de itens essenciais como trigo, remédios, insumos farmacêuticos e fórmula infantil. Esse subsídio tem um teto declarado de 3,5 bilhões de dólares. Paralelamente, o governo retirou esta semana mais 1 bilhão de dólares do Fundo Nacional de Desenvolvimento — seu fundo soberano, com reservas estimadas em 40 bilhões de dólares — para financiar a importação de açúcar, arroz, carne e ração animal. É a segunda vez em dois anos que o fundo é acionado para cobrir necessidades básicas de consumo.

Há uma tensão crescente, no entanto, sobre como usar esse dinheiro. As mesmas reservas são disputadas por outro objetivo urgente: reconstruir a infraestrutura industrial destruída pela guerra, em particular os setores de aço e petroquímica, que empregavam centenas de milhares de trabalhadores e eram pilares da cadeia produtiva do país. Trabalhadores dessas indústrias relatam demissões em massa, suspensão de benefícios e salários atrasados por meses. A escolha entre importar comida agora ou reconstruir a economia para o futuro é, essencialmente, a escolha entre apagar o incêndio imediato ou reconstruir a casa.

Para os 87 milhões de iranianos que recebem vouchers mensais do governo — introduzidos como compensação pelo corte de subsídios a alimentos no início do ano –, essa distinção é irrelevante. O que importa é que os vales, inicialmente equivalentes a 10 milhões de riais por pessoa, já tiveram seu poder de compra corroído pela inflação. O subsídio torna-se, assim, pouco a pouco, irrisório.

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O horizonte imediato tampouco é animador. A guerra praticamente interrompeu as exportações de petróleo — a principal fonte de divisas do regime dos aiatolás. Mais de 90% do comércio exterior iraniano passa pelo Estreito de Ormuz. As nações vizinhas que tiveram sua infraestrutura energética atacada pelo Irã já buscam rotas alternativas e podem não voltar a usar o estreito como antes, mesmo com uma eventual reabertura.

O FMI projetava, antes mesmo da escalada do conflito, uma contração de 6,1% para a economia iraniana em 2026, com inflação de 68,9%. Há um risco de colapso aceleradíssimo da moeda — o que pode vir acompanhado de uma agitação social de uma intensidade sem precedentes na história recente do país, mesmo sob a espada da repressão estatal.

O rial a 1,81 milhão por dólar é uma consequência direta da guerra, mas também de um regime que acumulou décadas de má gestão econômica, de sanções crescentes e de isolamento financeiro. Para o regime dos aiatolás, o front mais perigoso para sua sobrevivência talvez não seja o militar, mas, sim, o econômico.



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