
O CEO do Santander, Mario Leão, anunciou medidas para conter a alta da inadimplência em meio à deterioração da carteira de crédito, à queda da rentabilidade e a um lucro ligeiramente abaixo das expectativas do mercado no primeiro trimestre de 2026. As declarações foram feitas durante o evento de divulgação dos resultados do banco.
O Santander reportou lucro líquido recorrente de 3,78 bilhões de reais no primeiro trimestre de 2026, recuo de 1,9% em relação ao mesmo período do ano anterior. O resultado ficou levemente abaixo da projeção do mercado, que estimava lucro de 4 bilhões de reais, segundo consenso compilado pelo BTG Pactual.
A redução do lucro ocorre em um cenário de piora da qualidade da carteira. A inadimplência acima de 90 dias subiu 0,6 ponto percentual em 12 meses, passando de 2,8% no primeiro trimestre de 2025 para 3,3% no mesmo período de 2026. O avanço foi observado tanto entre pessoas físicas quanto jurídicas.
No varejo, a deterioração concentrou-se na baixa renda, segmento mais afetado pelo ambiente econômico adverso e pelos juros elevados. Já entre as empresas, a pressão veio principalmente das pequenas e médias companhias (PMEs), cuja inadimplência avançou 1,4 ponto percentual em um ano, alcançando 6%.
Com esse cenário, a rentabilidade do banco também foi impactada. O retorno sobre o patrimônio líquido (ROE, na sigla em inglês) caiu de 17,4% no primeiro trimestre de 2025 para 16% no primeiro trimestre de 2026.
Para enfrentar o problema, Leão afirmou que o banco reduzirá de forma seletiva a concessão de crédito para parte da população de baixa renda. Segundo ele, a restrição será direcionada principalmente a trabalhadores informais com renda de até dois salários mínimos. “Estou saindo de públicos com renda de até dois salários mínimos que não trabalham como CLT e estão na informalidade”, afirmou.
O executivo destacou, por outro lado, que o banco seguirá ampliando sua atuação no segmento de alta renda, considerado mais resiliente em um ambiente de juros elevados. Ele também ressaltou a expansão do crédito para financiamento de veículos, negócio que vem ganhando relevância dentro da operação do Santander. “Para cada dois carros elétricos financiados, um teve concessão do Santander”, disse.
O que esperar do Santander até o fim do ano?
Apesar das medidas adotadas, Leão avalia que o cenário continuará desafiador ao longo de 2026. Segundo ele, a carteira de crédito para pessoas físicas deve melhorar apenas de forma gradual, enquanto o segmento corporativo seguirá pressionado, principalmente no agronegócio.
Para pequenas e médias empresas e grandes companhias de setores fora do agro, a expectativa é mais positiva, com inadimplência relativamente controlada. Ainda assim, o banco continuará monitorando casos específicos de maior risco.
“Temos alguns casos pontuais no atacado que seguimos acompanhando. Mas a única carteira em que prevemos piora mais relevante na pessoa jurídica é o agronegócio, que ainda deve registrar um volume significativo de recuperações judiciais em 2026”, explicou.
Segundo o executivo, o cenário mais cauteloso reflete também a perspectiva de cortes de juros menores do que o esperado anteriormente. Isso mantém o custo do crédito elevado e limita uma recuperação mais forte da economia.
“Um corte de 0,25 ou 0,5 ponto percentual não vai melhorar a inadimplência nem reduzir nossas provisões. Os juros continuam muito altos de qualquer forma, mesmo se caíssem para 11% ao ano, em vez de 13%. Esse patamar ainda seria bastante elevado”, afirmou.
Diante desse contexto, Leão estima que a recuperação completa do banco será gradual. A expectativa é que o Santander volte a registrar retorno sobre patrimônio de 20% apenas em 2028, após concluir o processo de ajuste da carteira de crédito e ampliar a presença em segmentos considerados mais rentáveis. “A meta de alcançar rentabilidade de 20% continua de pé para 2028. Estamos bastante seguros dessa trajetória”, concluiu.
Em resumo, o Santander encerrou o trimestre pressionado pelo aumento da inadimplência, tendência que deve persistir ao longo do ano em meio ao ambiente de juros elevados. Para reduzir o custo de crédito, o banco pretende restringir a concessão para trabalhadores informais com renda de até dois salários mínimos e ampliar a participação de clientes de maior renda em sua carteira.