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A agência reguladora de telecomunicações dos Estados Unidos determinou, na terça-feira 28, uma revisão antecipada da licença da rede de televisão ABC, depois que o presidente Donald Trump exigiu a demissão do apresentador e comediante Jimmy Kimmel por uma piada dirigida à primeira-dama, Melania.
A ordem da Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC, na sigla em inglês) afeta a Disney, proprietária da ABC, e suas emissoras afiliadas.
O casal Trump pediu que a rede cancelasse o talk show noturno Jimmy Kimmel Live! por uma piada do apresentador que descreveram como “incitação à violência”, dias antes de um atirador invadir e abrir fogo em um jantar com o presidente e jornalistas da Casa Branca, caso investigado como tentativa de assassinato contra o líder americano.
A polêmica remonta ao programa exibido em 16 de abril, dois dias antes do atentado, em que Kimmel se apresentou como se fosse, hipoteticamente, mestre de cerimônias do jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca, em Washington, que aconteceria no sábado 18, e se dirigiu à primeira-dama dizendo: “Senhora Trump, você tem a aura de uma futura viúva.”
Na segunda-feira 27, Trump disparou que Kimmel deveria ser despedido “imediatamente” pela piada na qual comparou Melania a uma “futura viúva”. A primeira-dama também fez críticas ao apresentador, em um comunicado no qual instou a ABC a “tomar uma medida” contra ele. Em resposta, na edição de terça, o comediante afirmou que a resposta do casal presidencial era “ridícula” e que o governo estava “dando importância demais à brincadeira”.
“Foi uma piada bem leve” sobre “o fato de que ele tem quase 80 anos e ela é mais jovem do que eu”, disse Kimmel. Trump completará 80 anos em junho e é o presidente de maior idade da história dos Estados Unidos, enquanto sua esposa, uma ex-modelo nascida na Eslovênia, tem 56 anos.
O comediante também instou o ocupante do Salão Oval a dialogar sobre o “discurso de ódio”, em aparente referência aos seus comentários incendiários sobre os imigrantes, seus opositores políticos e os meios de comunicação. “Estou de acordo que a retórica de ódio e violenta é algo que devemos repudiar”, indicou Kimmel.
A Casa Branca voltou ao ataque nesta terça-feira. No X (ex-Twitter), o diretor de comunicação, Steven Cheung, chamou Kimmel de “pessoa de merda” por “insistir nessa piada em vez de fazer o correto e pedir perdão”.
Liberdade de expressão
Durante o programa de terça-feira, Kimmel exibiu um vídeo de Trump fazendo uma piada sobre sua idade ao receber em Washington o rei Charles III algumas horas antes.
O presidente comentou que seus pais foram casados por 63 anos e virou-se para Melania para dizer: “É um recorde que não vamos conseguir igualar, querida, sinto muito”. “Ele acabou de fazer uma piada sobre a própria morte?”, perguntou-se Kimmel em seu programa.
“Só Donald Trump pediria que eu fosse demitido por fazer uma piada sobre a idade dele e, um dia depois, sairia por aí fazendo uma piada sobre sua idade avançada”, acrescentou.
Considerado um dos principais nomes dos talk shows noturnos nos Estados Unidos, Kimmel esteve no centro do debate recentemente sobre a liberdade de expressão garantida pela Constituição do país.
Em meados de setembro, a ABC suspendeu temporariamente a exibição do programa Jimmy Kimmel Live! por comentários do apresentador considerados inapropriados após o assassinato do influenciador ultraconservador Charlie Kirk. Essa suspensão foi sugerida publicamente pelo presidente da FCC, Brendan Carr, nomeado por Trump.
Paralelamente, em julho, o grupo Skydance Media concordou, a pedido da FCC, em realizar alterações na linha editorial do canal CBS, frequentemente criticado por Trump, a fim de garantir o sinal verde para a sua aquisição pela Paramount Global.
A CBS também anunciou a descontinuidade de um programa concorrente ao de Kimmel, The Late Show de Stephen Colbert, supostamente por motivos financeiros, embora críticos enxerguem a decisão como uma forma de censura interna.