
Na próxima sexta-feira, 1º de Maio, a Avenida Paulista será palco exclusivo de uma manifestação da direita conservadora brasileira. O ato é organizado por três movimentos que, por critério de antecedência, conseguiram reservar a via junto à Polícia Militar e forçar a esquerda sindicalista a realizar eventos em outros pontos de São Paulo.
Individualmente, os movimentos Patriotas do QG, Voz da Nação e Marcha da Liberdade têm pouco peso no debate público nacional. O primeiro, liderado pelo corretor de imóveis Carlos Dias, consiste majoritariamente em um perfil de conteúdo bolsonarista no Instagram que acumula cerca de 4.000 seguidores — os demais sequer possuem canais oficiais nas redes.
O que une os três grupos é a associação ao Projeto União Brasil, organização civil fundada em 2019 — precedendo a criação do partido de mesmo nome — que reúne mais de uma centena de movimentos pelo Brasil em defesa de ideais conservadores, cristãos e patrióticos. Entre os filiados, há comunidades de juristas, militantes pelo acesso expandido a armas de fogo e coordenadores de acampamentos em apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
O mesmo “conglomerado” de movimentos esteve envolvido na organização de um ato em 1º de maio de 2021, também realizado na Paulista, no qual discursaram os ex-deputados Carla Zambelli e Roberto Jefferson (ambos presos, atualmente) e o sacerdote ortodoxo Padre Kelmon, que foi presidenciável nas eleições do ano seguinte. No trio, os palestrantes alegaram que havia risco de fraude nas urnas eletrônicas e criticaram as medidas de isolamento social decretadas durante a pandemia da Covid-19.
Fundador do Projeto União Brasil, o empresário Malta Jones, alcunha de Mário Sérgio Malta, diz a VEJA que o movimento é apartidário e não tem ligação direta com o PL ou com a campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro, a despeito da proximidade ideológica com o bolsonarismo. Ele ressalta que a manifestação da próxima sexta-feira não irá tolerar ofensivas contra o PT ou ministros do Supremo Tribunal Federal, tampouco promoção de candidaturas políticas. “Ninguém vai atacar ninguém no ato. Teremos alguns louvores e cantos e discursos em defesa dos valores conservadores cristãos”, afirma.
A previsão, segundo Malta, é posicionar dois carros de som em ambos os lados da Avenida Paulista, em frente ao Museu de Arte de São Paulo (MASP) e à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). O ato tem duração programada entre 11h e 18h30 de sexta-feira.
PM vetou atos de esquerda na Paulista por ordem de chegada e ‘questões de segurança’
Apesar da pouca expressividade, os Patriotas do QG “queimaram a largada” ao solicitar, ainda em 2025, a autorização para se manifestar na Avenida Paulista em 1º de maio de 2026. O critério da ordem dos pedidos foi decisivo para que a Polícia Militar, após se reunir com movimentos sociais no mês passado, decidisse aprovar a licença do grupo e rejeitar os demais cinco pedidos — dois deles, vindos de movimentos sindicais de esquerda.
Segundo a ata da reunião, a PM pediu que os militantes presentes declarassem “divergências ou antagonismo” entre seus movimentos e os demais à mesa. Citando “questões de segurança, tendo em vista ser ano eleitoral e possibilidade de tensão”, a polícia determinou que apenas os Patriotas do QG — representados na audiência por Malta Jones — poderiam ocupar a Paulista, autorizando os grupos de esquerda a se concentrarem em outros pontos da capital paulista na mesma data.
Após a decisão, amplamente criticada por lideranças pró-governo, os grupos de esquerda anunciaram a realocação de suas manifestações no próximo 1º de Maio. Na sexta-feira, a central sindical CSP-Conlutas deve realizar um ato contra a escala de trabalho 6×1 na Praça da República, a partir das 9h, enquanto a deputada federal Érika Hilton (PSOL), autora de uma proposta legislativa sobre o mesmo tema, convocou apoiadores a se concentrar no mesmo horário na Praça Roosevelt.