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Centenas se reuniram em Cauca para prestar homenagem, na segunda-feira 27, aos 21 mortos do mais letal atentado a bomba na Colômbia das últimas três décadas. O governo colombiano atribui o ataque a dissidentes das extintas Forças Revolucionárias da Colômbia (Farc) sob o comando de Iván Mordisco, o criminoso mais procurado do país, aquele que se recusou a assinar o histórico acordo de paz de 2016 e atualmente financia suas atividades com o tráfico de cocaína.

A hipótese do Exército é que os rebeldes montaram uma barricada no último sábado 25 para atrair as forças de segurança e emboscá-las com explosivos, de acordo com a agência de notícias AFP. Segundo o ministro da Defesa colombiano, Pedro Sánchez, essa foi uma tentativa de retaliação dos guerrilheiros após o aumento da pressão militar diante do fracasso das negociações de paz entre Mordisco e o presidente Gustavo Petro. Mas nenhum soldado ou policial morreu; todas as vítimas eram civis.

Especialistas afirmaram que este foi o mais letal atentado desde o ataque de 2003 ao clube social El Nogal, em Bogotá, que deixou 36 mortos e foi perpetrado pelas guerrilhas das Farc, agora extintas. O episódio lança uma sombra sobre a eleição presidencial na Colômbia, marcada para 31 de maio. Na segunda-feira, a candidata de direita Paloma Valencia denunciou um plano de Mordisco para assassiná-la. “Um grupo narcoterrorista colocou mais uma vez um preço na minha cabeça”, disse ela, afirmando que os dissidentes estão oferecendo mais de meio milhão de dólares por sua morte.

Quem é Mordisco?

Drones explosivos e carros-bomba tornaram-se a marca registrada do comandante do maior grupo dissidente das Farc. Atirador de elite, especialista em explosivos e rebelde implacável, Mordisco é cético em relação ao acordo de paz que desarmou o grupo guerrilheiro mais poderoso do continente. Ele não só se recusou a assiná-lo em 2016, como também organizou uma facção dissidente que permaneceu armada, financiada pelo narcotráfico.

Por trás dos óculos escuros, que sempre usa, seu nome verdadeiro é Néstor Gregorio. Hoje, ele comanda um esquadrão de cerca de 3.200 combatentes que se financiam com a venda de cocaína, mineração ilegal, extorsão e outros crimes.

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Mordisco ingressou na guerrilha ainda adolescente e é considerado um atirador de elite habilidoso. Com o tempo, conquistou o respeito de outros combatentes por sua proficiência com fuzis e explosivos.

Quando as Farc entregaram suas armas para se tornarem um partido político, Mordisco permaneceu na selva, onde tratou de semear terror. Ele continua usando os símbolos do antigo grupo guerrilheiro marxista e venera suas principais figuras, mas agora à frente do grupo dissidente chamado Estado-Maior Central (EMC).

Em vídeos, o guerrilheiro afirma estar “do lado dos pobres” e defender o meio ambiente, enquanto é acusado de assassinar militares, civis e ativistas na selva. Ele também é considerado um comandante implacável que ordena execuções por traição ou corrupção, segundo centros de pesquisa.

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“Herdeiro” de Escobar

O presidente colombiano, Gustavo Petro, compara Mordisco a Pablo Escobar, o narcotraficante e chefe do Cartel de Medellín que aterrorizou o país com bombas na virada dos anos 1980 para 1990. “Os que atentaram e mataram são terroristas, fascistas e narcotraficantes”, escreveu o mandatário no X. “Quero os melhores soldados para enfrentá-los”, acrescentou.

“No antigo grupo guerrilheiro, (Mordisco) era um comandante de nível médio. Nunca esteve entre os comandantes históricos, mas sua experiência militar e sua oposição inicial às negociações lhe conferiram significativa legitimidade”, disse à AFP o pesquisador de conflitos Jorge Mantilla.

Os combatentes do EMC se consideram herdeiros do projeto ideológico das Farc.

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Pablo Escobar, traficante de drogas colombiano
Pablo Escobar, traficante de drogas colombiano (AFP/VEJA)

Na época das negociações de paz de 2016, Mordisco não viajou às reuniões em Havana e deixou claro desde o início que não deporia as armas. O antigo segundo em comando das Farc e principal negociador, Iván Márquez, enviou um líder conhecido como Gentil Duarte à Colômbia para persuadi-lo a aderir ao processo de paz, de acordo com uma pesquisa da Core Foundation. Mas, longe de convencê-lo, Duarte se juntou a Mordisco e, juntos, rejeitaram o acordo com o então presidente e ganhador do Prêmio Nobel da Paz, Juan Manuel Santos.

Mordisco afirmou que se tratava de um pacto de “morte” e “desapropriação”. Ele acreditava que o acerto beneficiaria apenas a liderança das Farc, deixando combatentes de base desprotegidos.

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Desde então, o EMC e outros grupos dissidentes se fortaleceram rapidamente por meio de seus negócios ilícitos, recrutamento forçado e aliciamento de jovens empobrecidos em plataformas de mídia social como o TikTok. Mordisco manteve-se na clandestinidade e chegou a entrar em novas negociações com o governo colombiano – em abril de 2023, fez sua única aparição pública em uma área de selva, chegando em um SUV blindado de luxo, com um fuzil e óculos escuros, para anunciar o início das tratativas com Petro.

Em 2024, porém, rompeu as conversas de paz depois que o presidente o chamou de “traqueto”, termo coloquial para narcotraficantes na Colômbia. “Quero Iván Mordisco capturado vivo, não morto”, bradou o mandatário esquerdista, que lançou uma caçada implacável com recompensas milionárias por sua captura.

Ele já foi dado como morto em diversas ocasiões. Em 2022, o governo de direita de Iván Duque anunciou sua morte, mas o rebelde reapareceu posteriormente em um vídeo. Hoje, Petro o considera a principal ameaça à segurança de um país mergulhado em mais de seis décadas de conflito entre guerrilheiros, paramilitares, narcotraficantes e agentes do Estado.



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