Ler Resumo

Shakira ainda não chegou à capital fluminense para se apresentar no show “Todo Mundo no Rio”, previsto para o próximo sábado, 2 de maio, mas algumas polêmicas já estão contratadas. Uma das mais quentes é se a colombiana irá bater o recorde de públicos das apresentações de Madonna e Lady Gaga, que, segundo a Rio Tur, mobilizaram 1,6 milhão e 2,1 milhões de pessoas respectivamente, nas edições de 2024 e 2025.

A “competição”, no entanto, se dá com base em números inflados artificialmente pela prefeitura. Quem faz a afirmação é Mariana Aldrighi, professora de turismo da USP, que realizou um estudo sobre o tema, obtido com exclusividade por VEJA. “Eu tenho convicção de que os gestores do evento têm clareza do volume real, em torno de 700 000 a 800 000 pessoas, pois as decisões ligadas ao dimensionamento de segurança, transporte, oferta de banheiros químicos, entre outros fatores, precisam ser previamente estimados em números realistas”, afirma a docente.

Para chegar à incômoda conclusão, a equipe da USP estimou o espaço disponível para o show com base em mapas digitais disponibilizados no Data.Rio (portal de dados abertos da prefeitura do Rio de Janeiro). A área da faixa de areia, ruas e avenidas de Copacabana foi calculada desprezando-se os obstáculos existentes, tais como postes, árvores, degraus e bloqueios.

Com uso de o programa de computador especializado, foi possível gerar imagens que simulam a concentração de pessoas necessária para acomodar 2,1 milhões de pessoas, a cifra divulgada para a apresentação de Lady Gaga. Se fosse apenas na faixa de areia, praticamente toda a praia – inclusive a parte atrás do palco – teria de ser ocupada, com uma aglomeração de 9 indivíduos por metro quadrado.

.
Praia de Copacabana seria totalmente tomada para acomodar 2,1 milhões de pessoas, segundo estudo da USP (ECA USP/Reprodução)
Continua após a publicidade

A aglomeração é comparável à de um metrô lotado e tem altos riscos de confusão.  “Todos os especialistas em multidões com quem já conversei dizem que qualquer valor superior a 1 milhão na área de areia entre o Copacabana Palace e Praça do Lido causaria tumultos que levariam a pisoteamento com risco de mortes”, aponta Adrigui.

Levando-se em consideração o espaço disponível em ruas e avenidas, inclusive a Atlântica, via que acompanha a orla, o mesmo público exigiria o ingresso para dentro do bairro, ocupando-se ruas paralelas e transversais ao longo de dezenas de quarteirões.  “A medida do sucesso do Todo Mundo no Rio definitivamente não deve se dar pelos milhares ou milhões na praia, mas pelo volume de atenção mundial que a iniciativa gera e o que a cidade ganha a partir dela. Mesmo se fossem 500 000 pessoas, já seriam 10 estádios de futebol lotados, o que pode ser maior que algumas turnês pela America do Sul”, aponta Aldrigui.

Continua após a publicidade

.
Bairro ficaria lotado se a multidão ocupasse apenas ruas e avenidas (ECA – USP/Reprodução)

Para a professora, os gestores públicos se sentem fisicamente diminuídos quando os números de sua gestão são menores que os das anteriores, levando a quebras sucessivas – porém irreais – de recorde de público. A questão, pontua, é que o tema vai muito além de uma disputa baseada em achismos. “Se a base é mentirosa, qualquer estratégia construída sobre ela é estruturalmente frágil. Inflar cifras para parecer bem-sucedido é, no limite, uma forma de desinformação institucional que prejudica o debate democrático sobre prioridades urbanas. A cidade que não sabe quantas pessoas foram a um show, pode também “não saber” quantas precisam de moradia, transporte ou saúde”, diz.



Source link

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *