A forma de educar crianças e lidar com a infância tem passado por transformações nas últimas décadas — e um dos conceitos que vem ganhando espaço nesse debate é o da hiperparentalidade. O termo descreve um estilo de criação marcado por alta proteção, monitoramento constante e esforço dos pais para evitar frustrações. Embora esteja associado à intenção de oferecer melhores condições aos filhos, especialistas alertam para possíveis impactos no desenvolvimento infantil.

De acordo com a psicóloga clínica e neuropsicóloga Juliana Gebrim, esse comportamento pode influenciar a forma como as crianças lidam com limites e desafios. “Muitos pais tiveram uma infância com mais dificuldades e, quando conseguem oferecer uma condição melhor para os filhos, acabam tentando evitar que eles passem por qualquer frustração.”

O termo descreve um estilo de criação marcado por alta proteção, monitoramento constante e esforço dos pais para evitar frustrações

Segundo a especialista, esse padrão está ligado a um mecanismo conhecido na psicologia.

“Chamamos de um movimento de compensação: como eu não tive, eu quero dar ao outro. O problema é quando isso passa do ponto. Ao tentar proteger ou oferecer demais, os pais acabam não permitindo que a criança vivencie limites e frustrações importantes. E aí surge essa percepção de que a criança é ‘mimada’, quando, na verdade, faltou esse equilíbrio.”

A percepção de que as crianças atuais seriam mais “mimadas” também envolve um componente geracional, mas não se restringe a ele.

“Eu acredito que existe, sim, uma influência geracional, porém, também há mudanças reais na forma de educar. Muitos pais, por conta das próprias experiências, acabam compensando na criação dos filhos.”

Segundo a especialista, esse padrão está ligado a um mecanismo conhecido na psicologia

Ainda assim, a especialista ressalta que o cenário não é homogêneo. “Por outro lado, quando existe uma educação com afeto, com limites claros e consistentes, essa tendência diminui bastante. Nem todas as crianças entram nesse padrão.”

Na avaliação dela, a discussão envolve tanto percepção quanto realidade. “É uma combinação: existe a percepção entre gerações, mas também existem casos reais, geralmente ligados a essa tentativa de compensar o que faltou no passado.”

Excesso de proteção dos pais gera consequências

Entre os principais impactos do excesso de proteção está a dificuldade de lidar com situações adversas. “O principal impacto é a baixa tolerância à frustração. Essas crianças têm mais dificuldade em lidar com perdas, com o ‘não’ e com situações que são naturais da vida.”

Outros efeitos também podem aparecer ao longo do desenvolvimento. “Além disso, podem crescer sem desenvolver autonomia, com dificuldade de tomar decisões e de enfrentar desafios.”

A especialista ainda chama atenção para possíveis reflexos nas relações interpessoais. “E tem um ponto importante: algumas crianças também passam a ter dificuldade de dizer ‘não’, porque não aprenderam bem sobre limites. Isso pode, inclusive, deixá-las mais vulneráveis em relações futuras.”

Para Juliana Gebrim, o equilíbrio entre acolhimento e estabelecimento de limites é central na educação. “Por isso, é fundamental que a criança aprenda, desde cedo, a lidar com frustrações dentro de um ambiente seguro.”



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