
Passaram três semanas entre as duas eleições que colocaram o deputado Douglas Ruas (PL) na presidência da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). A primeira votação, no dia 26 de março, foi anulada horas depois pela Justiça. A segunda, nesta sexta-feira, 17, também está sendo questionada judicialmente pela oposição. Entre uma vitória e outra, o deputado mudou sensivelmente o discurso, mas a estratégia permanece a mesma: abrir caminho para chegar ao Palácio Guanabara.
Quando tomou posse pela primeira vez, Ruas prometeu pacificação e diálogo. Nesta sexta, ele subiu o tom contra a oposição por boicotar a eleição e tentar anular novamente sua vitória. “A população do Rio de Janeiro há de saber quem está trabalhando pela instabilidade institucional do nosso estado”, reagiu.
A presidência da Alerj é um degrau para o deputado tentar assumir o Executivo. Como neste momento o Rio não tem governador nem vice, o chefe da Assembleia Legislativa é o primeiro na linha sucessória para o Palácio Guanabara. O problema é que, por enquanto, o Supremo Tribunal Federal (STF) definiu que o desembargador Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça, deve comandar o estado.
Douglas Ruas e seus aliados buscam agora caminhos para viabilizar a ascensão do deputado ao governo. Ele é pré-candidato a governador em outubro e está se desdobrando para fazer a campanha no exercício do Executivo. O roteiro prevê, de saída, uma conversa com Ricardo Couto para sentir a disposição do desembargador em apoiar ou não uma eventual reivindicação do cargo.
Em paralelo, deputados aliados estudam, com o auxílio do departamento jurídico da Assembleia Legislativa, a melhor forma para acionar o Supremo. A Procuradoria da Alerj avalia se vai entrar com uma nova ação no STF ou se vai peticionar nos processos que já estão em curso no tribunal para definir como será a eleição-tampão para governador.
O cenário no Rio não tem precedentes. Os três poderes vinham sendo dirigidos interinamente. A Assembleia Legislativa estava sem presidente desde dezembro. O ex-deputado Rodrigo Bacellar (União), titular da cadeira, foi afastado por ordem do STF e depois casado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No Executivo, com a saída do ex-governador Cláudio Castro, o presidente do Tribunal de Justiça precisou substitui-lo, deixando a direção do Judiciário nas mãos da vice-presidente da Corte.
A estratégia de Douglas Ruas é apresentar sua eleição na Alerj como o primeiro passo para a reorganização do estado. “O que nós estamos buscando aqui é a normalidade institucional”, justificou o deputado em conversa com jornalistas após a eleição.
O desafio será no Judiciário. A queda de braço desbordou a política e chegou aos tribunais. Decisões liminares do Tribunal de Justiça e do STF causaram inúmeras reviravoltas no xadrez fluminense. As intervenções afetaram tanto a eleição na Alerj quanto a sucessão ao Executivo. A oposição manterá a ofensiva judicial para colocar água na estratégia do PL. Há um pedido no Tribunal de Justiça para anular a eleição desta sexta. Se o processo for negado, o grupo vai acionar o Supremo contra o resultado da votação na Alerj.
Os cálculos políticos dos dois lados orbitam em torno do calendário eleitoral. Douglas Ruas, ainda desconhecido da maioria da população, busca projeção política para ganhar tração nas urnas em outubro. “Não há dúvidas de que o que se deseja aqui não é a presidência da Alerj e sim a recomposição da linha sucessória”, reagiu a deputada Martha Rocha (PDT), da oposição, antes da sessão.
No Supremo, ministros como Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Luiz Fux colocaram em dúvida a idoneidade dos deputados do Rio. Desde a “ADPF das Favelas”, a Corte imprimiu um novo ritmo para investigações da Polícia Federal sobre a infiltração do crime organizado na política fluminense. A prisão do ex-deputado TH Joias, que expôs a teia do Comando Vermelho na Alerj, aprofundou as desconfianças. “As pessoas que não estão aqui no Rio de Janeiro acabam confundindo, entendendo que tem uma relação direta entre tudo o que acontece de ruim e a política”, rebateu Douglas Ruas em sua primeira entrevista coletiva como presidente da Assembleia do Rio.