
Uma delegação do Líbano deve participar na próxima semana de uma reunião em Washington com representantes dos Estados Unidos e de Israel para “discutir e anunciar” um cessar-fogo, confirmaram autoridades libanesas e a Casa Branca nesta sexta-feira, 10.
A confirmação foi feita um dia após o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ter anunciado que instruiu seu governo a iniciar negociações de paz com o Líbano “o mais rápido possível”.
O governo libanês, assim como Irã e Paquistão, defendem que o Líbano seja incluído no cessar-fogo na guerra entre EUA, Israel e Irã para permitir negociações mais amplas. Netanyahu insistiu que o Líbano não está incluído na trégua e prometeu que as forças armadas israelenses continuariam a atacar alvos do Hezbollah “onde quer que fosse necessário”.
O encontro, que ainda não tem dia exato da próxima semana definido, tem como pano de fundo incessantes ataques de Israel contra território libanês, que deixaram mais de 300 mortos nas 24 horas seguintes ao anúncio da trégua na guerra no Irã, na noite de terça-feira. Embora direcionados a alvos do Hezbollah, os ataques incluíram munições pesadas em áreas densamente povoadas, o que provocou indignação do Comitê Internacional da Cruz Vermelha e de outras organizações humanitárias.
O próprio Trump apoiou a versão de Bibi, declarando à emissora pública americana PBS que o Líbano “não estava incluído no acordo” devido ao papel do Hezbollah. Ele se referiu ao conflito no Líbano como uma “escaramuça à parte” da guerra com o Irã e acrescentou: “Isso também será resolvido. Está tudo bem.”
Já o vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, que liderará a delegação americana nas negociações de paz em Islamabad, sugeriu que houve um “mal-entendido legítimo” sobre o alcance geográfico do acordo de cessar-fogo.
O Paquistão, que intensificou seus esforços de mediação depois que Trump ameaçou um ataque que acabaria com “a civilização”, afirmou que o Líbano fazia parte do acordo.
O imbróglio do Líbano ameaça frustrar as esperanças de um fim negociado para a guerra no Irã, que teve início no ataque conjunto dos Estados Unidos e de Israel em 28 de fevereiro. Em resposta, o Irã já voltou a fechar o Estreito de Ormuz.
O presidente do país, Masoud Pezeshkian, afirmou que as negociações eram “inúteis” enquanto Israel continuasse os bombardeios, colocando em dúvida as conversas entre Washington e Teerã, que serão sediadas em Islamabad no sábado, 11. Segundo o vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Saeed Khatibzadeh, o único motivo pelo qual as forças iranianas não responderam à escalada israelense foi pela intervenção do Paquistão, que pediu moderação.
Negociação em Washington
Israel e Líbano não mantêm relações diplomáticas formais e, tecnicamente, estão em estado de guerra desde a fundação de Israel, em 1948. Israel tem um longo histórico de incursões e invasões militares no Líbano, incluindo uma ocupação de 18 anos no sul do país, de 1982 a 2000, que começou como uma operação contra grupos palestinos.
Duas autoridades israelenses ouvidas pela agência de notícias Reuters afirmaram que as negociações em Washington serão comandadas pelo embaixador israelense nos EUA, Yechiel Leiter, e pela embaixadora libanesa nos EUA, Nada Hamadeh Moawad.
Na quinta-feira, Netanyahu afirmou que Israel não interromperia os ataques contra o Hezbollah e negociações teriam objetivo de alcançar dois pontos: desarmamento da milícia libanesa e um acordo de paz entre os dois países.
O premiê e outros funcionários não disseram se estariam preparados para reduzir as operações terrestres ou retirar-se de posições no Líbano, caso as negociações avancem. Israel tem bombardeado aldeias libanesas numa tentativa de criar uma “zona tampão” contra o Hezbollah para além da sua fronteira norte.
Beirute, por sua vez, defende que um cessar-fogo é uma condição para novas negociações em direção a um acordo mais amplo. O acordo do Líbano para realizar negociações reflete níveis sem precedentes de oposição interna ao status do Hezbollah como grupo armado. Em março, o governo proibiu o Hezbollah de realizar atividades militares, embora a milícia ainda tenha um poderoso arsenal e seja apoiado por uma parcela significativa da comunidade xiita do país.