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Antes de ser um astro da música, o rapper Xamã era Geizon Carlos da Cruz Fernandes, um garoto da Zona Oeste do Rio de Janeiro fascinado pelos pôsteres de filmes em locadoras de vídeo. Fã do clássico de terror O Iluminado (1980), nutria o sonho de ser ator. O caminho até lá parecia inalcançável. Criado pela mãe e pela avó, ajudava nas contas de casa trabalhando em bicos como garçom, vendedor, camelô e, vez e outra, cantarolava rap no trem para ganhar uns trocados. Passou a competir em batalhas de rimas, criou o personagem marrento apelidado de Malvadão e caiu nas graças das redes sociais — porta que rapidamente fez dele um nome cobiçado na indústria musical. O sonho de ser ator, porém, nunca se dissipou.
Hoje, aos 36 anos, o carioca de traços indígenas — de origem pataxó — agrega os dois ofícios em uma rotina corrida. Atualmente no ar, na novela Três Graças, da Rede Globo, ele estreia nos filmes com Cinco Tipos de Medo (Brasil, 2025), que chega aos cinemas na quinta-feira 9. No longa de ação do diretor cuiabano Bruno Bini, Xamã interpreta Sapinho, um traficante de drogas que comanda um bairro pobre na capital de Mato Grosso. Inspirado em uma pessoa real, o criminoso truculento é, contudo, apreciado pela comunidade por exercer a função de protetor da região. A história de Sapinho se entrelaça com a de diferentes personagens, todos conectados pela violência, desde uma policial em luto até a protagonista, Marlene, papel de Bella Campos, uma enfermeira que é alvo da obsessão do traficante. “Foi a minha primeira vez atuando em um filme e poderia ter sido a última, então fiz da forma mais visceral possível”, contou Xamã a VEJA.
A dedicação é perceptível — tanto que ele saiu com o troféu de melhor ator coadjuvante no Festival de Gramado no ano passado, uma das quatro vitórias da produção, entre elas a de melhor filme. No discurso de agradecimento, pediu ao diretor que, da próxima vez, o chamasse para ser o mocinho. Boa praça e simpático, Xamã em nada se parece com os vilões que interpreta — e a lista é grande. Em Três Graças, ele também é um traficante; no remake de Renascer, seu primeiro papel de destaque, fez o matador Damião; e na série Os Donos do Jogo, da Netflix, dá vida a um bicheiro de pavio curto. Outro criminoso vai reforçar seu currículo: ele está no elenco de Cangaço Novo, do Prime Video, que lança sua segunda temporada no dia 24. Xamã entende que o rótulo que o persegue vem do bad boy criado por ele nas batalhas de rimas. “Quando eu for mocinho, acho que serei meio malvado”, brinca. É preciso manter a tal fama de mau.
Publicado em VEJA de 3 de abril de 2026, edição nº 2989