
O design brasileiro avança no cenário internacional, mas ainda enfrenta desafios para conquistar protagonismo global. A avaliação é da arquiteta e designer Juliana Pippi, 48 anos, que desembarca na Semana de Design de Milão, na Itália, para apresentar uma nova coleção de cortinas que propõe reinventar o uso dos tecidos na arquitetura. Em conversa com a coluna GENTE, Pippi assim detalha o projeto, que busca desconstruir a visão tradicional de elementos voltados a janelas e portas:
“O design brasileiro hoje no cenário internacional vem num momento de maturidade. Hoje existe mais clareza sobre a mistura entre repertório popular e sofisticação contemporânea. Ao mesmo tempo, acredito que o maior valor do design brasileiro não está em tentar reproduzir uma linguagem internacional, mas em afirmar a própria voz. Quando o Brasil aparece no exterior com autenticidade, chama atenção pela potência cultural que carrega. O principal obstáculo ainda é a dificuldade de transformar talento em continuidade. O Brasil tem criação, repertório e potência simbólica, mas ainda falta estrutura para internacionalização de longo prazo. Também existe uma questão de confiança cultural. No meu caso, quando a cortina deixa de ser vista apenas como acabamento e passa a ser entendida como elemento estrutural da atmosfera, ela começa a participar da arquitetura de fato. Ela filtra a luz, cria ritmo, organiza planos, altera a percepção de escala, traz movimento e interfere diretamente na experiência do espaço. Na prática, isso significa que ela entra no projeto desde o início, e não apenas no final como um complemento decorativo. O que me interessa apresentar na coleção é justamente deslocar esse olhar. Pensar a cortina como um elemento da arquitetura de interiores”.
E já que o assunto é design brasileiro, não há como fugir do tema do momento neste setor. A nova camisa da Seleção Brasileira veio cercada de polêmicas, em especial no uso da expressão “Vai Brasa”. O que esse episódio ensina ao design? A seu ver, esse caso mostra que inovação, por si só, não basta. “No design autoral, toda ruptura precisa construir sentido. Quando uma proposta toca símbolos muito afetivos, como a camisa da Seleção, precisa entender que está lidando com memória, identidade e pertencimento. Se a inovação parecer apenas uma tentativa de parecer jovem ou contemporânea, sem enraizamento real, ela corre o risco de soar artificial. Inovar não é romper por romper. É conseguir mover a linguagem sem quebrar o vínculo emocional com aquilo que já tem significado para as pessoas”, diz Juliana.