Boa parte da rotina das crianças ocorre em escolas e, muitas vezes, os professores se deparam com manifestações de condições como o Transtorno do Espectro Autista e o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). No entanto, não são todos que compreendem as dimensões das neurodivergências e sabem como lidar com as demandas desses alunos sem limitá-los. A partir dessa necessidade e de sua experiência pessoal, o paraense Gleyson Santos, de 24 anos, resolveu desenvolver uma ferramenta que unisse informações com embasamento científico e suporte pedagógico para os profissionais. E, assim, nasceu a NeuroIdentify, que já passou de sua fase piloto e se prepara para expansão pelo país.
A startup teve início com a ideia de Santos e de um grupo de quatro amigos de ajudar a universidade onde estudavam a identificar alunos com neurodivergência. A base para a ferramenta foi o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª Edição, mais conhecido como DSM-5, que é utilizado em todo o mundo como referência para classificar autismo, depressão, ansiedade e demais transtornos.
Fechada essa parte, foram reunidas informações para as intervenções pedagógicas para questões motoras e cognitivas que compunham a tecnologia. Funcionou, mas o foco precisou ser ajustado.
“Começamos a aplicar, mas vimos que era melhor usar na base, no primário, e não entre universitários”, explica Santos. “Depois dos 12 anos, as neurodivergências vão se juntando à ansiedade ou depressão e fica mais complicado entender um comportamento que está combinado com vários outros”, diz o CEO da NeuroIdentify.
Após a apresentação em eventos, a plataforma foi lançada em 2024 e começou a ser divulgada apenas no ano passado. De Belém (PA), alcançou escolas de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, além de dois profissionais de Alagoas e do Rio de Janeiro. Até o momento, são 200 estudantes e 20 profissionais impactados.

Como funciona a plataforma
A plataforma permite que os professores criem o perfil de seus alunos preenchendo possíveis dificuldades de fala, interação, aprendizado e características comportamentais, que são avaliados de acordo com o DSM-5. A partir dos resultados, os profissionais recebem orientações para desenvolver atividades em sala de aula adaptadas para as necessidades dos estudantes. Todos os dados são confidenciais e protegidos pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
A proposta não é diagnosticar as crianças, algo que deve ser feito por um profissional habilitado que vai direcionar as abordagens terapêuticas adequadas, mas nortear os professores na realização de tarefas que vão ajudar os alunos a se sentirem integrados à turma dentro de suas habilidades.
“A ideia é atender a necessidade real dos alunos e complementar o trabalho profissional sem onerar os custos nem sobrecarregar os professores. É para facilitar o caminho dentro da escola sem segregar quem vive com neurodivergências”, diz Santos.
Experiência pessoal
Santos compreende a complexidade de ser um aluno neurodivergente. O laudo comprovando que ele vive com TDAH veio aos 19 anos, de modo que sua vida oscilou entre o apoio e a incompreensão.
“Tive uma jornada acadêmica complexa. Meus pais me colocavam em reforço, tive uma rede de apoio, mas também tive professores que gritavam, jogavam piloto (para chamar a atenção). Não quero que as pessoas passem por isso.”
O balanço do primeiro ano já mostra benefícios. Em uma das escolas de Belém, houve 60% de melhora no comportamento de crianças na faixa de 4 a 5 anos e redução de 20% nas ausências escolares. Com os primeiros dados, o próximo objetivo da startup é alcançar outros estados e países.
“A gente tem vontade de expandir nacionalmente, em escolas públicas e particulares, mas temos um olhar voltado para que se estenda para a América Latina e países ibéricos.”
Mitos sobre transtornos
O estigma em torno de transtornos que afetam o comportamento, a fala e as interações ainda é um desafio dentro e fora do ambiente escolar. Ao longo do mês de abril, por exemplo, há a celebração do Abril Azul, um período de conscientização sobre o autismo, uma condição do desenvolvimento neurológico que interfere na comunicação, nas relações interpessoais e no comportamento dos indivíduos.
“Os principais mitos sobre o transtorno do espectro autista incluem a falsa associação com vacinas ou que seja decorrente de uma falha na criação dos pais, além do estereótipo de que todos os pacientes se comportam e apresentam as mesmas dificuldades. Esses conceitos simplificam uma condição complexa e contribuem para desinformação”, explica Liz Rebouças, neurologista da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Vila Santa Catarina.
A questão da falsa associação entre autismo e vacinas é uma chaga que gera culpa nos pais e afeta as coberturas vacinais, abrindo espaço para doenças infecciosas que podem levar à morte, caso do sarampo.
“A fake news foi gerada a partir de um artigo científico publicado em 1998, já amplamente desmentido pela comunidade científica. Desde então, há publicação de múltiplas meta-análises, revisões sistemáticas e estudos de coorte de grande escala demonstram de forma consistente que vacinas não causam autismo”, relata Rejane Macedo, neurologista do Einstein Hospital Israelita.
Atualmente, o novo fator apontado erroneamente como ligado ao espectro é o uso do paracetamol na gravidez após o governo dos Estados Unidos anunciarem a alteração na bula do medicamento por uma “possível associação” entre o fármaco e a condição em setembro do ano passado.
“Aumenta o risco à saúde de gestantes. A desinformação pode fazer com que gestantes evitem medicamentos seguros, como o paracetamol, optando por tratamentos mais arriscados ou levando a febres altas, que podem ser prejudiciais ao feto”, alerta a neurologista.