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Enquanto a guerra no Oriente Médio pega fogo, com novos ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã e a retaliação das forças islâmicas a todo vapor, outro enorme conflito, longe dali, segue em curso. Os combates na Ucrânia, que completaram quatro anos em fevereiro, têm sido ofuscados pelos acontecimentos vertiginosos a milhares de quilômetros de distância, mas o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, tem feito de tudo e mais um pouco para não ser esquecido.
Nesta sexta-feira, 3, Zelensky telefonou a autoridades americanas para convidar negociadores dos Estados Unidos a Kiev para retomar as negociações trilaterais com a Rússia. “A delegação fará todo o possível nas condições atuais – durante a guerra com o Irã – para vir”, disse ele a jornalistas.
Na véspera, o mandatário já havia afirmado ter mantido uma conversa “positiva” com os negociadores americanos Steve Witkoff, enviado especial de Donald Trump, e Jared Kushner, genro do presidente americano, sobre os esforços para pôr fim à invasão russa. O secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Mark Rutte, e o senador americano Lindsey Graham também participaram da conversa.
“Discutimos como fortalecer a diplomacia, quais medidas são possíveis, bem como garantias de segurança e o engajamento com os europeus. Foi uma conversa positiva”, disse Zelensky.
Além das ligações, o líder da Ucrânia também tentou colocar a guerra que trava contra a Rússia sob os holofotes ao propor uma nova trégua temporária a Vladimir Putin, conectado os acontecimentos no Leste Europeu ao conflito no Oriente Médio ao dizer que o acordo pontual diria respeito apenas à infraestrutura energética — para conter o abalo aos mercados devido às convulsões no preço do petróleo ligadas à retaliação iraniana.
O russo solenemente ignorou a proposta, que seria limitada às comemorações de Páscoa, mas serviu para Zelensky colocar a boca no trombone. Em telefonema com o papa Leão XIV na terça-feira, ele denunciou uma “escalada” da Rússia, que naquele dia lançou quase 500 drones e mísseis de cruzeiro contra a Ucrânia em plena luz do dia. Os ataques provocaram pelo menos seis mortes e cortes de energia.
“Os russos intensificaram seus ataques, transformando o que deveria ter sido o silêncio no céu em uma escalada”, afirmou. “Esta é a resposta da Rússia à nossa proposta de trégua de Páscoa.”
O presidente ucraniano também viajou ao Golfo Pérsico na semana passada, em uma visita relâmpago que colocou as capacidades militares de seu país sob holofotes e demonstrou um aumento da importância de sua influência geopolítica. Após escalas na Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar, assinou uma série de acordos de segurança que descreveu como “históricos”.
Os pactos preveem compartilhamento da experiência e da expertise tecnológica da Ucrânia no combate a drones, uma vez que as monarquias árabes têm tido dificuldade de defender-se contra os enxames de ataques iranianos, em troca de benefícios como apoio financeiro, fornecimento de energia e investimentos estratégicos. Há também interesse mútuo no desenvolvimento de parcerias de longo prazo nos setores de defesa e tecnologia.
Em paralelo, a Rússia vem se beneficiando com o conflito no Oriente Médio, apesar de ter no Irã um aliado próximo. Além da bem-vinda distração geopolítica que escanteou o conflito no qual é a agressora, a nação de Putin também ganhou com o desvio de armas americanas que seriam destinadas ao Leste Europeu (o jornal The Washington Post reportou que o Pentágono deve redirecionar cerca de US$ 750 milhões em fundos para reabastecer estoques militares dos próprios Estados Unidos).
Fora isso, por conta da crise do petróleo decorrente de ataques iranianos contra as engrenagens da indústria petrolífera do Golfo e o fechamento do Estreito de Ormuz, a necessidade urgente de suprimentos energéticos estáveis levou Washington a relaxar a aplicação de sanções às exportações de energia russas. Isso, somado ao disparo nos preços do combustível que continua a mover o mundo e ganho de participação de mercado devido à redução das rotas marítimas, aumentou as receitas de empresas petrolíferas russas. Estima-se que Moscou tem ganhado até US$ 230 milhões a mais por dia com exportações devido ao conflito no Oriente Médio.