Conhecida pelo seu papel como a irreverente Sam Puckett nas sitcoms americanas da Nickelodeon iCarly e Sam & Cat, Jennette McCurdy foi um rosto conhecido pela juventude que cresceu na década de 2000. Como muitos atores e atrizes mirins da televisão deste período, porém, Jennette teve um fim amargo na carreira de atriz.

De uma hora para outra, ela se aposentou e anunciou que não voltaria para o revival de iCarly, de 2021, esperado pelos fãs da série desde o seu fim em 2012. As explicações só viriam em 2022, com a publicação do livro Estou Feliz que Minha Mãe Morreu — publicado no Brasil pela editora nVersosonde Jennette estreou como autora e expôs a relação conturbada que tinha com a própria mãe, Debra McCurdy, a principal responsável por torná-la atriz desde tão nova. De forma sincera e sem rodeios, ela conta sobre o próprio desajuste dentro do set e a falta de vontade de atuar, que eram superados pela sua determinação em agradar a mãe e ajudar a família financeiramente. Apenas depois a morte da mãe, em 2013, ela pôde escolher o próprio caminho e se afastou de uma vez por todas da televisão, reinventando-se por meio da escrita.

Cruel e revelador, o primeiro livro de Jennette McCurdy foi além de um mero relato familiar e expôs ainda abusos que a autora sofreu dentro da Nickelodeon por meio de uma figura de poder nomeada apenas como “O Criador”. Mesmo sem citar nomes, especula-se que a autora falava de Dan Schneider, um dos chefões do canal envolvido em diversos escândalos expostos por ex-atores e atrizes. A desconstrução da figura de uma ídola mirim — impulsionada por ela mesma — chamou atenção e fez o livro permanecer mais de 80 semanas entre os mais vendidos do The New York Times. Cresceram as expectativas da crítica e do grande público pelo próximo trabalho de Jennette McCurdy, que tinha tudo para ser tão instigante quanto o primeiro.

Capa do livro
Capa do livro “Metade da Idade Dele” (Intrínseca/Divulgação)

A espera acabou em 2026 com o lançamento de Metade da Idade Dele (traduzido diretamente do inglês Half His Age), seu primeiro livro de ficção, que chega às livrarias brasileiras nesta quinta-feira, 2 de abril, pela Intrínseca. A narrativa gira em torno de Waldo, uma jovem de 17 anos que inicia um envolvimento amoroso e sexual com seu professor de escrita criativa, Mr. Korgy, que está na casa dos 40 anos. A escolha de tema e abordagem se distanciam da Jennette que o mundo conheceu com o livro de estreia, mas as entrelinhas da leitura evidenciam inseguranças que permearam a vida da autora, agora reinventadas: a solidão feminina, questões de classe e transtornos mentais associados à performance.

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Como qualquer adolescente de 17 anos, Waldo quer perseguir seus desejos à sua própria maneira. Conquistar a atenção daquele professor aparentemente desajustado e melancólico se torna seu objetivo primário, um escape em meio a uma rotina engolida pela solidão. Enquanto vive uma aparente fantasia adolescente, Waldo reivindica a própria liberdade ao buscar agir totalmente na contramão dos conselhos inadequados de sua mãe — que a ensinou desde muito jovem a conquistar um homem, mas que nunca teve um relacionamento digno de ser um exemplo.

Como um símbolo da solidão feminina e da complexidade adolescente, Waldo vive sob condições de vida precárias e passa por constantes apertos financeiros que a distanciam da ideia de um futuro promissor. Há ainda a falta de amor que a jovem encontra na relação com a mãe, com o pai e até com a melhor amiga Frannie — uma mórmom casta e devota que condena cada pequena parte da personalidade de Waldo e acaba por ser uma de suas únicas referências da mesma faixa etária. Sua principal distração é fazer pilhas de compras on-line, a maioria envolvendo itens de beleza e maquiagem, que descarregam sua ansiedade e alimentam a ilusão de que ela pode conquistar o amor alheio através da atração sexual. Segundo a autora, as camadas da personalidade de Waldo ajudam a dar voz a uma juventude errante e inconsequente — e, em algum nível, àquela Jennette que tanto lutou pelo controle de sua própria vida enquanto crescia. Confira, a seguir, o bate-papo de VEJA com Jennette McCurdy sobre Metade da Idade Dele.

O fato de em seu passado você ter se relacionado com um homem mais velho quando tinha 18 anos foi a inspiração para escrever este livro? Foi definitivamente um ponto de partida. Sei que as pessoas podem me projetar como a Waldo ou algo do tipo, mas isso seria uma interpretação completamente equivocada. Waldo é uma personagem própria, este mundo é um mundo próprio, o Sr. Korgy é um personagem próprio. Na verdade, o ponto de partida das ideias para mim é algum tipo de verdade emocional que sinto em relação a isso. Eu estive em um relacionamento com diferença de idade, mas existe pouca ou quase nenhuma sobreposição entre o que eu vivi e a história de Waldo. 

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Waldo entende desde muito cedo o que ela precisa fazer para conquistar um homem ou mantê-lo atraído por ela e talvez essa seja uma experiência universal para as mulheres. Quando decidiu que isso seria o ponto central da história? Acho que você tem razão quando diz que ela está inserida em um mundo e ambiente dominados pelo olhar masculino. Ela trabalha na Victoria’s Secret, sabe? Ela anseia pelo afeto de seu professor e de qualquer outro homem ao seu redor. Ela orientou seu mundo para tentar encontrar uma maneira de se sentir atraente, de se sentir pertencente e, em última análise, de ser vista. Mas isso é algo que só existe para ela no início do livro, e não vou falar muito, pois não quero dar spoilers para quem ainda não leu. Mas vejo o arco dela como o de uma jornada de autodescoberta e de encontrar seu próprio poder, por mais desajeitado e difícil que seja esse processo.

O que é mais importante para entender o ponto de vista de Waldo nesta história? Acho que posso afirmar que a história é contada inteiramente do ponto de vista de Waldo e que ela é uma personagem realmente espinhosa e complexa. Ela não é essa criatura perfeita ou ingênua. Ela é realmente muito imperfeita e complexa e, apesar de se esforçar ao máximo, falha. Ela se sente miserável na maior parte do tempo e acho que essa é uma parte importante dela. Muitas vezes, quando há um jovem protagonista na literatura, em qualquer forma de arte, existe uma espécie de vivacidade forçada e uma certa rigidez que eu acho repugnante. Acho isso realmente desagradável e repulsivo. Os jovens são complexos, só porque são jovens não significa que sejam estúpidos, não significa que sejam descomplicados, e eles merecem ser retratados dessa forma.

Como surgiu a ideia de inserir a discussão sobre a compulsão de Waldo por compras? Sempre soube que iria abordar esse tópico no livro? Eu adoro essa pergunta porque realmente acho que o consumismo e o capitalismo são temas importantes que realmente se destacaram no livro, mas eles não estavam presentes desde o início. Houve cerca de 20 versões do livro ao longo dos últimos dois anos, que foi o tempo do processo de escrita. Eu diria que por volta da metade, lá pela décima versão, foi quando o vício dela em compras surgiu. Eu literalmente pulei da cama. Não sou uma pessoa matinal, mas levantei num pulo bem cedo porque eu simplesmente soube: “Ah, essa é a peça que faltava no quebra-cabeça.” E assim que isso entrou em cena, eu realmente senti que o livro tinha se encontrado.

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O humor ácido combinado com uma escrita crua e direta tem sido uma característica marcante de autoras femininas contemporâneas, como Ottessa Moshfegh, Emma Cline e várias outras. Por que acha que essa forma de escrever tem ficado tão popular? Sabe, acho que não consigo falar sobre estilo de escrita em geral. O que posso dizer é que sempre escreverei dessa forma. É realmente a única maneira que sei escrever. Há algo despretensioso nisso. Espero que seja despretensioso, ao mesmo tempo que aborda assuntos complexos. Acho que há uma bela harmonia em poder desafiar o leitor sem exibir palavras difíceis.

Escreveu esse livro pensando em atingir algum público específico, como adolescentes de 17 anos que podem estar se apaixonando por seus professores mais velhos? Eu escrevo completamente para mim. Sou muito egoísta nesse sentido. Escrevo para mim mesma e confio que essa é a maneira de alcançar o público certo. Acho que escrever para um público específico, tipo, “Ah, se eu mirar nesse público…”, não consigo nem imaginar escrever para ele. Não acho que isso seja coisa de artista. É coisa de um executivo de marketing. É uma carreira diferente. Escrevo para mim mesma e confio que as pessoas certas vão ler e encontrar meu trabalho.

O livro tem um final bastante aberto. Chegou a imaginar como seria o futuro da Waldo depois de toda a experiência que ela viveu com Sr. Korgy? Algo que eu realmente queria evitar em Metade da Idade Dele era mostrar Waldo 20 anos no futuro, com aquela retrospectiva em que ela olha para trás e meio que divaga poeticamente sobre a vida dela. Acho que é muito fácil fazer isso se você pula para o futuro e mostra uma personagem dizendo “Ah, sim, lembra de quando eu era jovem?”. Para mim, o que Waldo vivencia neste livro não é algo que vai defini-la. Não é algo em que ela vai ficar remoendo daqui 20 anos. É algo que ela vai superar e vai conseguir dar risada um dia. E isso não significa tornar a história ridícula ou menosprezá-la de alguma forma, mas é algo que ela já superou há tanto tempo e se tornou uma pessoa tão forte… que simplesmente não vai defini-la. Ela é ótima nisso, na verdade.

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O “age gap” (diferença de idade) é um artifício bem comum em romances, e aqui você subverte essa ideia de uma forma inteligente e original. Sentiu que estava indo contra as tendências literárias? Sinceramente, posso dizer que nunca li um romance, então não sei bem o que se passa nesse lado do universo literário. Mas acho que há um tema tabu no centro do meu livro. Nunca vi este livro como sendo sobre o tabu em si, e sim como uma exploração de todos os fatores que levam um jovem a se envolver com esse tipo de tabu. Então, há o trauma geracional, o consumismo, as amizades que você escolhe, as narrativas que você cria sobre si mesma. Todas essas coisas me interessam muito mais do que o próprio tabu. Eu simplesmente nunca li um romance, então tive que encontrar uma forma de entrar nesse assunto.

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