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Apesar de ser tratada como droga “da paz” e de baixo impacto para a saúde dos usuários, a maconha volta ao debate científico com um alerta preocupante: o consumo prolongado pode, sim, deixar marcas no cérebro. Um estudo apresentado no Congresso Europeu de Psiquiatria, em Praga, sugere que o uso contínuo da substância está associado ao afinamento de uma área-chave do cérebro, o córtex frontal — justamente a região responsável por funções nobres como planejamento, tomada de decisão e controle do comportamento.

Na prática, isso significa mexer com aquilo que permite ao indivíduo organizar a própria vida. Conduzida por pesquisadores da Fundação Fidmag Germanes Hospitalàries, na Espanha, a investigação analisou adultos que consumiram cannabis por uma década –muitos diariamente, há pelo menos cinco anos. Ao comparar exames de ressonância magnética desse grupo com os de pessoas que quase nunca tiveram contato com a substância, os cientistas encontraram diferenças estruturais relevantes.

O dado mais sensível foi o afinamento do chamado córtex frontal médio rostral direito. Embora o termo soe técnico, o impacto pode ser bastante concreto: essa área está diretamente ligada às chamadas funções executivas — um conjunto de habilidades mentais que entram em ação toda vez que alguém precisa tomar decisões, resolver problemas ou simplesmente manter o foco em uma tarefa. “Esses são processos que usamos o tempo todo, todos os dias”, disse a pesquisadora Ana Aquino-Servin. Segundo ela, usuários frequentes podem até conseguir realizar suas atividades normalmente, mas à custa de um esforço maior do cérebro.

Há também outro efeito possível — e talvez ainda mais perceptível: a perda de motivação. Diversos estudos já vinham apontando uma associação entre o uso de cannabis e níveis mais baixos de iniciativa. A nova pesquisa reforça essa hipótese. “Pode haver uma relação entre o consumo e a dificuldade de iniciar tarefas”, afirma autora principal do estudo, Aquino-Servin.

Ainda assim, os próprios cientistas fazem uma ressalva importante: não está claro se essas alterações são permanentes, nem se são causadas exclusivamente pela cannabis. Existe a possibilidade de que sejam reversíveis após a interrupção do uso — uma resposta que a ciência ainda não tem.

O tema ganha contornos mais amplos em um momento em que cresce, em diferentes países, a pressão pela legalização da droga. No Reino Unido, por exemplo, o uso medicinal já é permitido em alguns casos, enquanto o consumo recreativo segue sendo debatido. Se antes a preocupação maior recaía sobre adolescentes — mais vulneráveis a alterações no desenvolvimento cerebral —, agora o foco começa a se ampliar. O recado da nova pesquisa é claro: mesmo no cérebro adulto, o uso prolongado de cannabis pode não sair ileso.



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