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Será que Draco e Watermelina vão ficar juntos, minha gente? A pergunta poderia se referir a qualquer casal de novela, eu sei, mas os dois personagens são parte do elenco de Fruit Love Island, nova mania das redes sociais. Detalhe: Draco é uma pitaya e Watermelina, uma melancia,  ambos criados com modelos de IA, e as aventuras românticas desse grupo de frutas que se comportam como humanos acumularam mais de 3,3 milhões de seguidores e ultrapassaram 200 milhões de visualizações combinadas nos seus mais de 20 episódios.

Fruit Love Island virou, assim, o reality show mais assistido do TikTok no momento. Tudo bem, a gente sabe que realidade nunca foi exatamente a característica mais forte desse tipo de programa, apesar do nome. Mas agora a coisa foi longe demais, não? É um programa que mobiliza multidões, feito sem humanos, sem câmeras, sem equipe de produção. E com frutas, como eu falei ali em cima, geradas por inteligência artificial.

O que acontece num reality de frutas de IA?

Para quem não associou os nomes ainda, trata-se de uma paródia do reality show britânico Love Island, onde solteiros competem por amor e dinheiro numa locação paradisíaca isolada. Aqui, os participantes são frutas coloridas, musculosas, usando roupas mínimas (nunca achei que um dia escreveria essa frase) que se beijam, choram, traem e caem na pancada (nem essa).

A narrativa é como as dos realities estrelados por gente: casais se formam, novos personagens surgem para estremecer os romances, e por aí vai. Os espectadores podem votar nos desfechos por meio de um formulário online na bio do criador.

Fruit Love Island foi criado por uma conta chamada AI.Cinema021 e estreou no TikTok há cerca de dez dias. A identidade do criador é um mistério. Claro que o sucesso deu origem a uma série de desdobramentos on-line. Existem contas de fofoca, vídeos de recap, fan arts, spinoffs e uma infinidade de paródias — quase sempre geradas por IA. Uma conta no Instagram chamada FruitvilleGossip, por exemplo, criou uma série chamada Fruit Paternity Court. E, sim, é o que parece: frutas participando de ações judiciais de reconhecimento de paternidade.

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Por que as pessoas assistem?

Há alguns fatores para a gente entender o fenômeno. O primeiro é o reconhecimento imediato do formato. O segundo é a participação ativa: o público vota, influencia e sente que tem voz na história. O terceiro é o formato: cada episódio é curto o suficiente para ser consumido sem se pensar muito a respeito, porém dramático a ponto de puxar o próximo. Quando percebe, o usuário já viu o programa todo.

É importante dizer que, embora a estética colorida atraia crianças e adolescentes, os temas dos episódios podem ser adultos demais para boa parte desse público. No caso do Paternity Court, personagens femininas são humilhadas, agredidas, expulsas de casa. Bebês “nascidos” de casos extraconjugais são jogados pela janela e há cenas que sugerem violência sexual.

Além do conteúdo impróprio, há imperfeições técnicas evidentes, como vozes fora de sincronia com os movimentos da boca, animações que falham e outros probleminhas típicos de conteúdo feito com IA. Mas as pessoas não se importam, então fica aí uma reflexão para quem cria na internet e se desdobra em busca de publicar material perfeito.

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Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista e criador do podcast educativo Aprenda em 5 Minutos



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