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Em fevereiro, durante a sexagésima edição do Super Bowl, 125 milhões de pessoas assistiram ao confronto entre o New England Patriots e o Seattle Sea­hawks que definiu o campeão (o Seattle) da última temporada de futebol americano. Uma parte do público, porém, estava mais interessada no show que o cantor porto-riquenho Bad Bunny faria no intervalo. Não se tratava de ansiedade de fãs, mas de puro interesse financeiro. Somente na Kalshi, uma das maiores plataformas de previsões do mundo, os usuários apostaram um total de 100 milhões de dólares na música que abriria a apresentação e mais 45 milhões nos artistas que seriam convidados. Tais cifras permitem um vislumbre da força do mercado de previsões, que tem crescido exponencialmente nos últimos anos. Em 2025, movimentou 40 bilhões de dólares no mundo, um salto de 400% sobre o ano anterior. Neste ano, a empresa americana de capital de risco Foresight Venture estima que esse mercado alcance os 300 bilhões de dólares. Já a consultoria Eilers & Krejcik calcula que, em 2030, totalize 1 trilhão de dólares.

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Os números superlativos começam a aguçar o apetite de instituições financeiras do Brasil. A XP Inc., holding que controla a corretora XP Investimentos, anunciou uma parceria com a Kalshi, fundada em 2018 pela brasileira Luana Lopes Lara e pelo americano Tarek Mansour. Com isso, os clientes da Clear Corretora que tenham conta internacional na XP poderão negociar previsões. A B3 também vai explorar esse filão com o lançamento, neste ano, de contratos preditivos batizados de “derivativos de eventos”. Destinados a investidores profissionais — aqueles com mais de 10 milhões de reais em aplicações financeiras —, os produtos serão lastreados em previsões para ativos financeiros como o dólar e o Ibovespa. Segundo Luiz Masagão, vice-presidente de produtos e clientes da B3, o objetivo é tratar esses papéis como contratos de derivativos, algo que os investidores já conhecem. “Não são apostas”, diz Masagão. “São ativos negociados no mercado e com preços formados pelos participantes.

Mansour e Lara, fundadores da Kalshi: parceria com a XP Inc.permitirá que brasileiros façam suas previsões
Mansour e Lara, fundadores da Kalshi: parceria com a XP Inc.permitirá que brasileiros façam suas previsões (./Divulgação)

A negociação direta entre as partes é uma distinção fundamental. Apostar no resultado de eventos tão variados, como quem será o próximo presidente da República ou os vencedores do Oscar, não é novidade. Há décadas, as casas tradicionais de aposta permitem que os palpiteiros ganhem ou percam dinheiro assim. As semelhanças com o emergente mercado de previsões, contudo, terminam aí. Nas bets, os dois principais elementos da aposta são definidos pelo próprio site — o valor do prêmio e as probabilidades de um resultado ocorrer. Além disso, o prêmio é pago pelo site. No mercado preditivo, as casas atuam apenas como plataformas em que indivíduos apostam uns contra os outros — e quem perde paga. Para que o vencedor não leve um calote, são necessárias regras que tornem a relação confiável. A B3, por exemplo, colabora com a Comissão de Valores Mobiliários na criação de uma regulamentação para o mercado de previsões, para evitar problemas como sonegação fiscal, prejuízos ao consumidor e lavagem de dinheiro. “O Brasil não pode repetir os erros que foram cometidos no início das bets”, diz Fabio Kujawski, sócio do escritório de advocacia Mattos Filho. Não é difícil prever o que acontecerá se tais lições forem negligenciadas.

Publicado em VEJA, março de 2026, edição VEJA Negócios nº 24



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