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Poucas políticas públicas rendem resultados tão palpáveis quanto aquelas voltadas para o saneamento básico. E dá até para contabilizar: cada real investido retorna multiplicado por três na forma de redução de custos em saúde, alta da produtividade, valorização de imóveis e escalada do turismo, conforme recente estudo da ONG Trata Brasil. Em um país calejado pelas más estatísticas no setor, a boa nova é que, aos poucos, o assunto vem saltando da frieza das planilhas para se converter em exitosos casos sobre os quais vale lançar luz. Alvo de justificada incredulidade, a despoluição da Baía de Guanabara, cartão-postal carioca por décadas insalubre, se tornou o mais contundente exemplo de que, com a disciplinada expansão de coleta e tratamento do esgoto, é possível transformar águas imundas em balneáveis — iniciativa bilionária prevista para durar até 2030 e que já fez mudar a cara do verão com a reabilitação de areias como as do Flamengo e da Glória. Também circular pela Lagoa Rodrigo de Freitas, outra bela paisagem da cidade, deixou de ser prova de fogo às narinas, já observando-se por lá peixes em profusão — sinal de que os esforços concentrados para livrar aquela maravilha de cenário da sujeira tem surtido efeito.

O impulso à mudança nesses e em outros pontos do território brasileiro, que renascem a olhos vistos, tem raízes no marco do saneamento básico, aprovado em 2020, que estabeleceu metas para melhorias e permitiu o afluxo de capital privado. A atual temporada de calor já oferece um leque mais variado de praias, como no disputado litoral norte da Bahia, onde agora dá para mergulhar nas belas Ipitanga e Guarajuba, e em Balneário Camboriú, cuja faixa litorânea de maior procura, conhecida como Central, ganhou recentemente bandeira verde dos órgãos ambientais. Na região metropolitana de Maceió, Barra de São Miguel acaba de se tornar o primeiro município a universalizar o saneamento — feito cravado com aporte de 40 milhões de reais da BRK, a companhia à frente do serviço em uma dezena de cidades. Nas próximas três décadas, a previsão é de aporte superior a 2,6 bilhões de reais, cifra que se estima necessária para frear o despejo de dejetos in natura no mar azul-turquesa, que tantos turistas ainda pode atrair. “Estamos realizando vistorias para acabar com as ligações clandestinas de esgoto nas galerias de água pluvial”, conta Herbert Dantas, diretor-presidente da BRK em Alagoas.
Em um país em que 95 milhões de habitantes não têm até hoje acesso a esgoto tratado, os avanços esbarram na histórica resistência de governantes em colocar dinheiro em obras subterrâneas, sem a mesma visibilidade de estradas e viadutos, e ainda por cima custosas e demoradas — isso sem falar no ranço da esquerda em relação a privatizações e concessões nessa área. O marco do saneamento vem mudando essa escrita com um duplo estímulo financeiro: os municípios deixam de abrir o cofre para realizar os projetos e, em paralelo, recebem reforço no orçamento com a assinatura dos contratos. Desde a aprovação da medida, a quantidade de concessões pulou de 219 para 1 793, fazendo com que o investimento chegue à casa dos 180 bilhões de reais. “O capital privado tem uma agilidade bem maior por não precisar percorrer todo o caminho burocrático”, ressalta Luana Pretto, presidente da Trata Brasil.

Na Região Norte, onde o crescimento urbano desordenado tornou-se ameaça ambiental à Floresta Amazônica, uma injeção de recursos começa a dar outra perspectiva aos inúmeros bairros erguidos sobre palafitas. Foram instalados 200 quilômetros de tubos para coletar material orgânico só em Manaus, sendo boa parte posicionada de maneira suspensa para atender justamente aos imóveis equilibrados sobre pilotis nos rios. “Isso mudou inclusive a consciência dos moradores em relação aos cuidados com o igarapé. Antes, os dejetos eram jogados embaixo das nossas casas”, conta Elaine Nunes, 49 anos, funcionária de um condomínio. As obras para modernizar e construir estações elevatórias e de tratamento já consumiram 3 bilhões de reais. A reviravolta contou ainda com um relevante empurrão à população local: o serviço aos egressos de camadas de renda mais baixas ficou em 10 reais por domicílio.
Por determinação do marco legal, 99% dos brasileiros deverão ter água tratada em casa e 90%, esgoto sanitário — tudo até 2033. Mas é preciso acelerar o passo: à velocidade de hoje, o atraso será de umas três décadas, ao menos. Um dos obstáculos tem sido convencer prefeitos a apresentarem planos de expansão de um serviço que, embora essencial, encarece o custo de vida. Localizada na exuberante Costa Verde fluminense, Angra dos Reis está prestes a se mexer nesse setor que tanto dissabor já lhe trouxe: por cerca de vinte anos, o município mergulhou em dívidas com o governo federal para pôr de pé cinco estações de tratamento, que se tornaram esqueletos inoperantes, resultado da má gestão. Com recursos próprios, a prefeitura melhorou a infraestrutura e conseguiu recuperar as praias de Bonfim e Monsuaba — até a emblemática Praia do Anil, no centro, chegou a se tornar própria para banho por alguns dias em 2025. “Não temos condição de absorver tantos gastos, então vamos fazer a concessão já”, anuncia Felipe Larrosa, presidente do Serviço de Água e Esgoto local. Moradores e turistas agradecem, em aplaudido cuidado com o ambiente.
Publicado em VEJA de 27 de março de 2026, edição nº 2988