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Entre abril e outubro de 2024, a assistente financeira Clebya Aparecida Ribeiro de Oliveira viveu uma situação difícil no trabalho. Funcionária de uma empresa de Goiânia (GO), ela se tornou alvo de piadas e humilhações, tanto por parte de outros empregados quanto da própria gerente do departamento. Os problemas começaram logo no primeiro dia, quando uma colega, curiosa e invasiva, descobriu sua idade: 41 anos. A jovem, de 22, reagiu de forma deselegante: “Você é velha!”. A partir dali, começou o calvário de Clebya, que passou a ser chamada por todos — até pela chefe — de “véia”. O problema ultrapassou o limite da brincadeira (de mau gosto) e levou a assistente financeira a recorrer à Justiça. Ela acusou a empresa de cometer etarismo, a discriminação contra pessoas mais velhas.
O caso de Clebya, hoje aos 43, ilumina um problema que até poucos anos atrás costumava ser varrido para baixo do tapete nas relações sociais, mas aos poucos ganha relevo graças a protestos de idosos e até de atrizes famosas de Hollywood ou daqui. Agora, a questão chega às empresas — e à Justiça. Ações assim passaram a surgir com mais frequência desde 2023, quando o Congresso Nacional promoveu uma atualização no Estatuto do Idoso, com o intuito de ampliar o combate ao etarismo. A mudança ajudou a dar nome ao problema. “Eu não sabia que existia etarismo, mas tinha certeza de que não era certo o que estava acontecendo comigo. Por isso procurei a Justiça”, disse Clebya em entrevista a VEJA — na qual preferiu não mostrar seu rosto, alegando estar traumatizada com os ataques de haters nas redes sociais (leia abaixo).
A goianiense ganhou a causa e deu foco a uma questão nacional. O processo foi julgado pela 1ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 18ª Região, que determinou o pagamento de indenização de 1 500 reais. É uma quantia irrisória perto do sofrimento relatado, como crises de choro e insônia. Mas o valor simbólico de sua vitória é imenso. “A ação transmite a mensagem de que se trata, sim, de um crime e que empresas não podem permitir esse tipo de conduta”, diz Luiz Carlos Souza, advogado de Clebya.
Para além do caso dela, verifica-se uma explosão de ações contra o etarismo no país. Atualmente, cerca de 1 400 processos relacionados ao tema tramitam no Tribunal Superior do Trabalho. Isso, sem contar os milhares de processos regionais em andamento. Só na Grande São Paulo, eles somam 2 090. O dado reverbera uma triste realidade no ambiente de trabalho: 86% das pessoas com mais de 60 anos que permanecem no mercado relatam episódios de humilhação ou desrespeito, segundo pesquisa da FGV. Agora, o que era antes tratado como normalidade incômoda passou a ser percebido como inaceitável.
O Brasil debate o tema com atraso: a questão chegou aos tribunais daqui mais de meio século depois em relação a países como Estados Unidos. Por lá, a discriminação por idade é combatida desde 1967, o que permitiu a formação de jurisprudência robusta e a aplicação de indenizações mais altas, com efeito pedagógico. A defasagem histórica ajuda a explicar por que as punições ainda são brandas no país. “No fundo, isso revela que os magistrados não percebem a questão como crime grave”, diz o especialista em causas trabalhistas Sérgio Pelcerman, da Almeida Prado e Hoffmann Advogados.
A nova atitude das vítimas reflete uma disposição crescente (e bem-vinda, insista-se) para dar nome aos bois e confrontar o preconceito. “Ao reconhecer práticas antes banalizadas, a sociedade revela uma maior consciência coletiva”, diz a advogada Heloisa Papassoni, doutoranda em ciências do envelhecimento. Hoje, há mais disposição para buscar reparação. Numa obra clássica sobre a maturidade, a francesa Simone de Beauvoir fez um diagnóstico preciso sobre a questão: “A sociedade aceita a velhice como um destino, mas recusa-se a reconhecê-la como uma fase da vida”. Que a luta contra o etarismo ajude a virar esse jogo.
“Eu tinha crises de choro”
Após vencer ação por etarismo, Clebya Aparecida Ribeiro de Oliveira fala sobre o que viveu no trabalho.
Quando começaram os episódios de etarismo? Quando uma colega de trabalho passou a me chamar de “véia”. Eu pedia para parar, mas ela continuava. Era o tempo todo, durante as oito horas de trabalho.
E a gestão, como reagia? A gerente reforçava esse comportamento. Dizia, na frente de todos, que sempre orientava o dono a não contratar pessoas mais velhas — e olhava para mim.
Houve algum episódio que marcou o início dessa escalada? Sim. Um dia, tropecei na escada do prédio e machuquei o dedo. Quando cheguei, a colega falou: “Por isso que não se deve contratar gente véia”. A partir daí, qualquer coisa de que eu reclamasse — dor de cabeça, cansaço — gerava comentários pejorativos.
Era excluída pelos colegas? Sim. Eles combinavam de sair para almoçar e não me chamavam. Depois, eu mesma me afastei. Tinha crises de choro, não comia e não dormia. Procurei um psiquiatra para lidar com essa situação. Tudo em mim parecia errado. A chefe criticava até minha aparência. Mandava eu passar batom.
Foi um período muito duro? O pior da minha vida. Fiquei muito abalada emocionalmente.
Publicado em VEJA de 27 de março de 2026, edição nº 2988
