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Prestes a adentrar a quinta semana, a guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã já produziu cenários de terra arrasada, atingiu nações do Golfo que se julgavam blindadas no explosivo mapa do Oriente Médio e, ao fazer disparar o preço do petróleo, espalhou incertezas na economia global, sendo que o Brasil não é exceção. Mas o que Donald Trump alardeava no princípio, elevando às alturas a régua das expectativas, não se concretizou: apesar do tão divulgado baque em instalações nucleares e na força bélica do inimigo, o regime dos aiatolás seguia, até quinta 26, não apenas de pé, mas emitindo sinais de que, mesmo sendo o lado mais fraco, ainda tinha fôlego para sacudir o tabuleiro geopolítico e fazer o presidente americano perder o sono. E como.
Nestes últimos dias, Trump fez o que pôde para tentar afinar o discurso e convencer o planeta, e os eleitores de seu país, de que Washington travava “conversas produtivas” com Teerã — informação seguidamente desmentida pelo regime persa. Enredado nas próprias bravatas (“haverá rendição total, vocês vão ver”), na terça 24 pôs à mesa um plano de paz de quinze pontos que, francamente desfavorável ao Irã, foi logo descartado, em tom de provocação: “A guerra será encerrada quando assim decidirmos”, dizia um comunicado oficial.

Após eleger-se prometendo nunca, jamais se meter em duelos que ao fim só trazem dissabor aos Estados Unidos, Trump pode estar caindo em armadilha semelhante à de seus antecessores, com custos políticos elevados e ironias de figuras da república islâmica como o porta-voz militar Ebrahim Zolfaqari, que desdenhou: “Ele deve estar negociando consigo mesmo”. Foi o Paquistão, no papel de mediador, que transmitiu o sumo da proposta americana para a trégua, inicialmente de trinta dias: restrições severas ao arsenal de mísseis balísticos, fim total do programa de enriquecimento de urânio e controle compartilhado internacional do nevrálgico Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo consumido no globo — tudo estava lá. Em troca, as sanções contra o Irã seriam suspensas. Os aiatolás declinaram e ainda expuseram suas próprias exigências: que os americanos deixem em paz milícias que eles financiam, como Hamas e Hezbollah, e indenizem suas perdas. “A capacidade do Irã de provocar a desestabilização global tem sido um trunfo com o qual Trump não contava”, avalia o cientista político Mahdi Rezaei-Tazik, da Universidade de Berna.
É verdade que, sabidamente, americanos e israelenses estão vencendo no campo militar: estima-se que mais de 70% dos lançadores de mísseis iranianos foram inutilizados, ainda que foguetes e drones continuem a furar bloqueios tidos como quase inabaláveis. A supremacia bélica, porém, não resolve os enroscos políticos e diplomáticos que a guerra criou. Um complicador reside nas ambições de Israel, que não se preocupa com um ponto-final imediato, voltado que está para o objetivo de enterrar o governo xiita de seu arqui-inimigo na região. Como mais um ingrediente de pressão contra o Irã, acabam de ser despachados 2 000 paraquedistas americanos para o Oriente Médio. A Casa Branca faz mistério sobre onde ficarão posicionados, embora tenha deixado vazar que seu destino pode ser infiltrar-se na ilha de Kharg, de onde saem 90% das exportações de petróleo bruto do Irã. “Trump deixa todas as opções em aberto para depois decidir como cantar vitória”, afirma Louise Kettle, do think tank RUSI, em Londres.

Quanto mais a batalha se estica, pior fica a situação do presidente diante de eleitores que, em sua maioria, não veem propósito na guerra e ainda sentem seus efeitos no bolso, que anda doendo com a subida de 30% no preço do combustível em solo americano. A aprovação de Trump recuou para 36%, o nível mais baixo de seu segundo mandato. De acordo com uma recente pesquisa do Instituto Ipsos, 80% dos que ajudaram a elegê-lo em 2024 gostariam que o conflito fosse encerrado já. Os ventos desfavoráveis sopram justamente em um momento crucial, com as eleições de midterm — aquelas que se desenrolam no meio do mandato presidencial para definir o controle do Congresso — logo ali, em novembro. Já não se previa vida fácil para os republicanos mesmo antes da guerra, dado o desgaste natural de quem está no poder, mas a presença no horizonte do conflito no Oriente Médio torna mais árdua a manutenção da maioria tanto na Câmara como no Senado.
Por trás das primárias que vão definir os candidatos às vagas em disputa, está em jogo o poder de fogo de Trump dentro do próprio partido, sobre o qual teve até agora domínio absoluto. No Texas, estado mais republicano impossível, novas aferições indicam que John Cornyn, um quadro moderado da sigla, pode superar o preferido da base trumpista. Na Carolina do Norte, onde o aspirante democrata ao senado fez do custo de vida tema central no palanque e o republicano é um ex-lobista do setor petrolífero, as casas de aposta dão à oposição 80% de probabilidade de vitória. Em uma eleição recém-realizada na Flórida para deputado estadual, curiosamente no distrito de Mar-a-Lago, onde Trump mantém seu luxuoso QG, quem levou a melhor foi o democrata, e de longe. Detalhe: o próprio Trump fez questão de votar. “Os sinais não são positivos e deixam claro que ele precisa administrar os custos políticos da guerra”, diz o especialista em relações internacionais Luís Winter, da PUCPR.

A operação militar do outro lado do mundo também já faz tremerem os pilares dos radicais do MAGA, a turma que agita a bandeira da “América em primeiro lugar”, trumpistas de carteirinha na origem, desde sempre contrários à ideia de intervenções, movidas a vultosas cifras, no quintal alheio. Um de seus mais vocais representantes, Tucker Carlson, estrela da Fox News que se demitiu para lançar um podcast, avisou a seus mais de 1 milhão de ouvintes que rompeu de vez com a Casa Branca por achar intolerável “esse conflito catastrófico”. “Trump prometeu não uma, mas inúmeras vezes que não faria isso”, bradou. Não é voz solitária entre os que desfiam, sob os potentes holofotes das redes, seu desgosto com o governo que outrora festejavam. Na lista, estão ainda a também ex-Fox News Megyn Kelly (“Atacar o Irã é péssimo para os Estados Unidos”) e o podcaster Joe Rogan, que em outros tempos atraiu uma legião de jovens eleitores para as hostes trumpistas (“Fomos traídos”).
Todos eles, não custa lembrar, já estavam em ponto de fervura com o rumo tomado pelo escândalo em torno de Jeffrey Epstein, o financista condenado por criar uma rede de exploração sexual de meninas, de quem, segundo a tonelada de documentos que veio à luz, Trump se manteve bem mais próximo do que admite. Agora, a insatisfação ecoa até mesmo no Salão Oval, onde o vice-presidente JD Vance tem preferido não soltar um pio sobre a guerra, à qual é notoriamente contrário — um silêncio, aliás, calculado, já que qualquer palavra que soe favorável ao conflito pode vir a ser entrave a suas ambições políticas. Nos próximos dias, o assunto Irã tem tudo para agitar a CPAC, conferência que reunirá em Dallas expoentes da extrema direita global. Como se vê, o barril de pólvora que Trump acendeu pode explodir mais perto de casa do que ele próprio imaginou.
Publicado em VEJA de 27 de março de 2026, edição nº 2988