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Fez mais barulho do que a exclusão de Neymar do grupo do treinador Carlo Ancelotti. A campanha do novo uniforme oficial da seleção brasileira para a Copa do Mundo, lançado na segunda-feira 23 pela Nike, pôs lenha na fogueira. O motivo: a inclusão da palavra “brasa” bordada nas meias e a expressão “Vai, Brasa” numa etiqueta dentro da gola. Para muito além da discussão idiomática — que diabos tem a ver “brasa” com “Brasil”? —, despontou guerra de proporções épicas, e dá-lhe lavagem de roupa suja. Some-se o ruído ao uso da logomarca de Michael Jordan, garoto-­propaganda intimamente ligado à empresa americana de equipamentos esportivos, na camisa azul. O detalhe tem tudo a ver com a Nike, tudo a ver com a expansão global da grife (cesta!) — e nada a ver com o Brasil, o país de Pelé.

O movimento “Brasa” incomodou até quem, nos últimos anos, tratou de reinventar o uso da camisa amarela, tirando-a dos gramados para as ruas, subtraindo as cores do esporte para trocá-las por ideologia. “A seleção brasileira não é uma marca, não é gíria de internet e não é experimento de marketing”, disse o senador Hamilton Mourão, vice-presidente no tempo de Jair Bolsonaro. “Trocar Brasil por ‘BRASA’ não é modernidade, é ofensa.” Coube a Rachel Denti, diretora de arte e ilustradora da Nike, que trabalha na empresa desde 2021 e mora em Portland, nos Estados Unidos, apresentar o desenho em entrevistas em sites e nas onipresentes redes sociais. “É o Brasil, mas também é Brasa quando está jogando, né?”, disse ao mostrar a peça em um manequim sem rosto. “Tem escrito ‘Vai, Brasa’, que é uma coisa que a gente escuta nos estádios, escuta na rua, e agora os jogadores vão poder usar no corpo, carregando com eles.”

MERCURIAL - A versão vermelha vazada por um site: dá-lhe polarização
MERCURIAL - A versão vermelha vazada por um site: dá-lhe polarização (./Reprodução)

Sobrou para Rachel, na saraivada de críticas destemperadas pela internet, em misto de misoginia e ódio político. “Depois de ver essa ‘designer’ com o visual à la Che Guevara, eu tenho certeza que tentaram empurrar a camisa vermelha para os brasileiros”, esbravejou o empresário Luciano Hang, da Havan, aquela rede com imitações da Estátua da Liberdade em suas lojas. De fato, em 2024, o então presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, chegou a aprovar uma versão rubra — em decisão abortada muito antes de ir para manufatura. Uma única imagem vazada por um site obscuro, o Footy Headlines, se espalhou como fogo, em termômetro do indevido uso do manto de futebol como arma de polarização na política.

A ideia de agora da Nike foi bem-intencionada, e não há nenhum erro em testar novas soluções. A rigor, o nome pau-brasil, batizado pelos portugueses, veio da cor avermelhada, cor de brasa, do cerne da madeira. Mas seria malabarismo demais ir buscar o rótulo neste março de 2026 nas raízes etimológicas. Lembre-se que, em 2023, o Comitê Olímpico do Brasil já tinha usado a expressão “Manda brasa, Brasil” em uma campanha institucional — sem, no entanto, ousar mexer no vestuário. Mas, agora, deu muito errado. A moral da história: convém sempre medir os humores da sociedade — e aí, sim, tomar decisões, especialmente as mais ásperas. Foi o que aconteceu em 1953, quando a então Confederação Brasileira de Desportos, a CBD, decidiu aposentar o tom alvo do uniforme da seleção, associado até o último pigmento ao Maracanazo, a derrota para o Uruguai na Copa de 1950. “O branco nada traduz, especialmente quando possuímos uma bandeira nacional com cores muito mais expressivas”, manchetou um jornal do Rio. E então, em 1953, um desenhista gaúcho, Aldyr Garcia Schlee, venceu o concurso para as novas modalidades da indumentária ao propor o amarelo-ouro, que viraria a querida canarinho.

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Pode soar um tanto exagerado comparar a adoção do esquisito apelido de agora ao terremoto de meados dos anos 1950 — mas todo cuidado é pouco, e não há aí nenhuma dose de exacerbado nacionalismo.

ATAQUES - A designer Rachel Denti, criadora da marca: sobrou para ela
ATAQUES - A designer Rachel Denti, criadora da marca: sobrou para ela (@racheldenti/Instagram)

Um conselho: ouvir o que nasce das pessoas. “As marcas vêm a reboque da cultura, podem até incentivar comportamentos, mas não dá para imaginar sucesso daquilo que brota do nada”, diz Marcos Bedendo, sócio consultor da Brandwagon e professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo. O arquiteto Oscar Niemeyer contou a VEJA, certa vez, o episódio de uma praça de Brasília — lá no início da construção, ele deixou que os cidadãos atravessassem o espaço de um lado para o outro no chão ainda de barro, pelos atalhos que preferissem. Depois que o solo ficou marcado com as pisadas mais curtas é que decidiu pavimentar. Ou seja: antes vieram os passos candangos, a intuição dos pedestres, depois é que a engenharia traçou os caminhos.

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Poderia ter sido assim com a camisa da seleção. A confusão levou a CBF a informar, horas antes do amistoso contra a França, na quinta 26, que o tal “brasa” era peça publicitária e que estará apenas nos produtos vendidos no comércio — mas não nas partidas. Quem sabe, com um pouco mais de calma, a etiqueta com o ruidoso dístico fosse deixada de lado. O “brasa”, na verdade, tem conexão com outras comunidades, como a dos skatistas, mas não a dos boleiros. O que fazer? Tocar em frente, porque nesse aspecto Ancelotti nada pode fazer, e até que desponte outra fenomenal polêmica o país manterá na memória a máxima de Roberto Carlos nos tempos da Jovem Guarda, nos anos 1960, em que agradecia ao distinto público com uma adorável “é uma brasa, mora!”. Aquela “brasa, mora” colou no imaginário coletivo — o coelho tirado da cartola de hoje não funciona, especialmente em tempos tão bicudos para o futebol brasileiro, que desde 2002 não levanta uma taça do mundo. Precisava inventar? Não.

Publicado em VEJA de 27 de março de 2026, edição nº 2988



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