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A entrevista do economista Alex Agostini, da Austin Rating, joga luz sobre dois debates que ganharam força recente: a regulamentação dos aplicativos e a possível mudança na jornada de trabalho, como a escala 6×1. A leitura dele é direta: o Brasil precisa evitar decisões apressadas e, principalmente, olhar o impacto econômico antes de transformar intenção em regra. É aquele caso clássico em que a boa ideia pode virar problema se não for bem calibrada.
Trabalho por aplicativo
No caso dos aplicativos, Agostini lembra que a realidade brasileira é muito diferente da observada em países desenvolvidos. Lá fora, essas plataformas surgiram com foco em mobilidade e redução de poluição. Aqui, ganharam outro papel: tornaram-se fonte de renda para milhões de pessoas em um mercado de trabalho ainda com excesso de mão de obra. Esse detalhe muda completamente a discussão, porque qualquer regra mexe não só com empresas, mas com o sustento de famílias.
Equilíbrio
Por isso, ele defende equilíbrio. Nem liberar tudo, nem apertar demais. O economista alerta que decisões guiadas por “pautas populistas”, especialmente em ano eleitoral, podem criar um emaranhado difícil de desfazer depois. A preocupação é que uma regulamentação unilateral, focada apenas na proteção do motorista sem análise técnica, desestimule as empresas. No fim das contas, quem paga essa conta costuma ser o consumidor — com tarifas maiores — ou o próprio trabalhador, com menos oportunidades.
Questão fiscal
Outro ponto levantado é a questão fiscal. A exigência de detalhamento maior nas notas e na tributação das plataformas pode aumentar a transparência e a arrecadação do governo, mas não sem efeitos colaterais. Agostini destaca que, se os custos subirem, as empresas tendem a repassar esse impacto para motoristas ou usuários. É o típico efeito dominó: melhora a arrecadação de um lado, mas pode pressionar renda e preços do outro.
Jornada de trabalho
Quando o assunto muda para a jornada de trabalho, o economista adota tom semelhante. Ele reconhece que, depois da pandemia, ficou evidente a importância do equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. No entanto, critica a comparação direta com países europeus. Segundo ele, não basta importar o modelo sem considerar produtividade e custo do trabalho, que são bem diferentes por aqui. Reduzir jornada sem ganho de eficiência pode elevar custos e reduzir competitividade.
Estrutural e fiscal
A preocupação final é fiscal e estrutural. Agostini lembra que mudanças na relação de trabalho afetam arrecadação, produtividade e crescimento. Em um país que já convive com desafios nas contas públicas, qualquer alteração sem base técnica pode empurrar o problema para frente — e, muitas vezes, isso significa mais impostos no futuro. Em outras palavras, o debate é necessário, mas a conta precisa fechar.