Se estivesse vivo, Henry Borel completaria dez anos em maio. A vida do menino foi interrompida precocemente no dia 8 de março de 2021. Não se sabe exatamente o que aconteceu naquela madrugada no apartamento 203 do edifício Majestic, na Barra da Tijuca, Zona Sudoeste do Rio, mas o Ministério Público não tem dúvidas de que a criança foi vítima de um homicídio. O laudo da necropsia é categórico: Henry morreu em decorrência de uma laceração no fígado que causou uma hemorragia interna. O ferimento, na avaliação do perito do Instituto Médico Legal (IML), foi provocado por uma “ação contundente”, ou seja, violenta.

Apenas duas pessoas têm as respostas sobre a dinâmica completa do crime: a professora Monique Medeiros, mãe de Henry, e o ex-vereador carioca Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, o padrasto, os únicos que estavam no apartamento com o menino. Eles foram denunciados por homicídio duplamente qualificado por tortura e uso de recurso que impossibilitou a defesa da vítima. Ambos negam enfaticamente ter assassinado a criança, mas estão em uma posição difícil porque ficou comprovado que Henry foi vítima de episódios de agressão antes do desfecho fatal. As versões da acusação e das defesas serão colocadas à prova no Tribunal do Júri do Rio, a partir desta segunda-feira, 23. O veredito está nas mãos de sete jurados.

A esperança dos advogados do ex-vereador é convencer os jurados de que Jairinho prestou socorro ao menino. Henry foi levado por ele e pela mãe ao hospital Barra D’Or, mas segundo a equipe médica já chegou morto na emergência. As profissionais responsáveis pelo atendimento foram unânimes em seus depoimentos: Henry estava com trismo, ou seja, rigidez da mandíbula. O dado é importante para o Ministério Público porque, na visão da acusação, demonstra que o menino só foi levado ao hospital quando Jairinho e Monique tinham certeza de que ele estava morto e que não havia mais chance de salvá-lo. Já o ex-vereador alega que a criança estava viva, caso contrário a equipe médica não teria empreendido tanto esforço na tentativa de reanimação, e atribui a morte – e os machucados identificados no corpo – às manobras de ressuscitação. Os médicos tentaram reanimar o menino, que chegou a ser entubado, com massagens cardíacas e injeções de adrenalina. Segundo o hospital, o corpo médico seguiu protocolos técnicos e nenhuma das lesões apontadas na necropsia é compatível com o atendimento. 

Os advogados do ex-vereador também pretendem tentar desqualificar o laudo do IML, a principal prova técnica da acusação. Existem de fato ali imprecisões — no nome do hospital e na cor dos olhos do menino, por exemplo — que serão usadas na tentativa de colocar em dúvida as conclusões do relatório, mas que em pouco alteram o essencial.

O julgamento também se organiza em torno da figura de Monique Medeiros, mãe de Henry, hoje no centro de uma disputa de narrativas sobre o que aconteceu na noite da morte do menino. O processo passou por uma guinada em abril de 2021, quando Monique foi presa. Em uma estratégia de auto-sobrevivência, a professora dispensou os advogados de Jairinho, rifou o ex-vereador e passou a dizer que foi coagida a mentir nos primeiros depoimentos. A versão inicial, de que o menino foi encontrado por ela caído no quarto, foi retificada. Monique passou a sustentar que estava dormindo e que não sabe o que aconteceu com o filho.

Monique vai afirmar no julgamento que foi dopada pelo ex-vereador e, por isso, não presenciou as agressões. A defesa pretende usar a seu favor os relatos de ex-namoradas de Jairinho, que passaram a denunciar publicamente agressões do ex-vereador e serão testemunhas da acusação no Tribunal do Júri. Monique vai alegar que viveu um relacionamento abusivo e que é uma vítima na história. O obstáculo é a acusação, que pretende pintá-la como uma alpinista social que negligenciou o filho para ascender economicamente. 



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