Ler Resumo

Todos os meses, mulheres em idade fértil embarcam numa montanha-russa hormonal, com curvas, subidas e descidas físicas e emocionais. Ainda assim, entre a cólica e a falta de energia, elas trabalham, cuidam da casa e dos filhos e, por que não?, se exercitam. Mas, depois de ouvir queixas sobre um possível impacto dos diferentes períodos do ciclo menstrual na prática de atividade física, pesquisadores começaram a levar a sério essa história e a investigar a fundo a relação entre a gangorra dos hormônios femininos e o desempenho esportivo. Apesar de ser um campo novo na ciência, a prescrição de treinos de acordo com o período do mês ganha popularidade nas redes sociais. No TikTok, a ideia de sincronizar o relógio biológico com a academia virou um fenômeno com a hashtag #cyclesyncing, que já acumula mais de 280 milhões de visualizações, especialmente entre jovens.

Embora os efeitos do ciclo menstrual na resposta aos exercícios possam variar e ser mais ou menos sutis, crescem as evidências de que as repercussões físicas e psíquicas causadas pelas oscilações dos hormônios não devem ser desprezadas. De fato, há um descompasso histórico nos estudos que focam as particularidades do organismo feminino — seja na reação a remédios, seja no âmbito esportivo. E o desafio se torna ainda maior quando se leva em conta que, numa mesma mulher, o ciclo pode sofrer alterações de um mês para o outro. Na pesquisa, unir grupos em perfeito alinhamento, do sangramento à ovulação, para a coleta de dados é tarefa complexa. Mas começa a ganhar força, tanto entre atletas profissionais como amadoras, a percepção de que elas não reagem da mesma forma aos estímulos e às modalidades o mês todo. Alguns dias são explosivos, outros de apatia. Culpa de quem? Dos hormônios.

arte ciclo menstrual

 

O tema foi debatido recentemente em artigo do periódico British Journal of Sports Medicine a partir de uma revisão da literatura médica sobre os reflexos do período menstrual em si no desempenho físico. Pelos dados analisados, 43% dos estudos mostraram que as mulheres sentem algum impacto na hora de se exercitar. Nos dias de ovulação, quando há um pico do hormônio estrogênio, a resistência melhora em virtude de o corpo potencializar o uso de fontes de energia. Já na fase lútea, com a elevação de outro hormônio, a progesterona, a sensação de sobrecarga tende a aumentar. Quem acompanha de perto as praticantes de exercícios nota a diferença no rendimento. “Na fase menstrual, a mulher tem uma baixa de estrogênio e progesterona, o que interfere de forma significativa na disposição”, diz o educador físico Diego Leite de Barros. “Na ovulação, pelo contrário, ela se sente com mais energia.”

Em uma análise recém-publicada pela Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, foram apresentados indícios de que o sobe e desce dos hormônios femininos não afeta diretamente a capacidade de fazer exercícios intensos, mas mexe com a percepção da fadiga. “A quantidade de esforço que uma mulher aguenta ao longo do ciclo parece ser a mesma, mas não o modo como se sente em relação a isso”, diz a pesquisadora Mira Schoeberlein, autora do trabalho, pioneiro por dosar não só a flutuação hormonal, mas também outros parâmetros, como frequência cardíaca.

Continua após a publicidade

PEGAR LEVE - Sessão de ioga: boa pedida para fases de “baixa energia”
PEGAR LEVE - Sessão de ioga: boa pedida para fases de “baixa energia” (Klaus Vedfelt/Getty Images)

Em atletas profissionais, as investigações já oferecem resultados mais palpáveis. Em um estudo realizado na Espanha e no Reino Unido com 33 jogadoras de futebol, o objetivo foi avaliar a influência do ciclo na ocorrência de lesões durante as partidas. Constatou-se que, na fase de sangramento, a incidência de machucados em músculos, tendões e ligamentos era o triplo daquela observada fora desse período de baixa hormonal e perda de sangue. Não só: as lesões no período da menstruação eram mais graves e de recuperação lenta.

Apesar das provas que começam a se acumular, ainda não há um consenso científico ou uma diretriz formal para nortear as mulheres no dia a dia de academia. “Existem, sim, flutuações hormonais, mas não há uma proposta uniformizada de resposta a elas”, afirma a endocrinologista Andréa Fioretti, coordenadora do Departamento de Endocrinologia do Esporte e Exercício da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. “Na teoria, em algumas fases há mais dificuldades, mas as mulheres, sobretudo as atletas, têm alta capacidade de superação para evitar a queda da performance.” A ponderação é vital diante das tendências de treinos para o ciclo menstrual que pululam na internet. Pode fazer sentido pegar leve e optar por uma sessão de ioga no período de marasmo, mas não necessariamente o programa de exercícios de uma mulher cai como uma luva para outra. A melhor recomendação: conhecer e calibrar limites. Em poucas palavras, respeitar os ritmos do corpo.

Publicado em VEJA de 20 de março de 2026, edição nº 2987



Source link

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *