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Quando a Torre Eiffel brotou na homogênea paisagem de predinhos alvos de Paris, revestida do orgulho de roubar o milenar posto das pirâmides do Egito e passar a ostentar a mais alta estrutura já posta de pé no curso da história, a desaprovação foi geral. A ambição contida no conjunto longilíneo de treliças, feito só para servir de porta de entrada a uma daquelas exposições universais para onde afluía gente de todo canto, em 1889, era celebrar um século de Revolução Francesa e exibir ao mundo um símbolo do vigor de uma superpotência com dinheiro de sobra para esticar a corda da engenhosidade humana a 300 metros de altura, tocando o céu. Faltou combinar com os locais: corre a história de que os que podiam arcar com a conta graúda faziam fila em um restaurante logo ao lado, um dos únicos pontos sem vista para o colosso de ferro. Mas o que era para ser provisório se perpetuou, sendo aos poucos assimilado e tornando-se cultuado cartão-postal.

AMOR E ÓDIO - As pirâmides do Louvre: repudiadas no início, viraram hoje point instagramável
AMOR E ÓDIO - As pirâmides do Louvre: repudiadas no início, viraram hoje point instagramável (Krisztian Elek/SOPA Images/Getty Images)

Muitas outras vezes os franceses se rebelaram contra novidades urbanísticas que, para eles, feriam o olhar — uma longa lista coroada por uma segunda torre, a Montparnasse, que nos anos 1970 despontou com seus destoantes 59 andares. Não demorou e também ela se veria na mira de mesma ironia: “O melhor ângulo parisiense é de cima dela, já que dali não dá para avistá-la”, costumavam dizer os parisienses raiz. Pois a passagem do tempo, que acabou por ser generosa com a torre desenhada por Gustave Eiffel, hoje o monumento mais visitado do planeta, não suavizou os ferinos adjetivos que os franceses, não sem razão, não cansam de dedicar à feiosa Montparnasse: “verruga de Paris” e “o dedo do meio da capital”, entre os mais delicados. E não deu outra: a grita de décadas, aliada à necessidade de adaptação aos ventos modernos do maior arranha-céu plantado nos limites da Cidade Luz (ainda que com 110 metros menos do que a Torre Eiffel), fez com que seus proprietários anunciassem uma repaginação completa, obra que consumirá 600 milhões de euros e deve ficar pronta em 2030. Tudo será refeito sob os parâmetros sustentáveis em voga, com fartura de painéis transparentes, jardins suspensos e uma estufa agrícola no topo. O interior abrigará um hotel de luxo, medida para resolver a atual ociosidade do espaço. “Com o mercado de escritórios saturado e investidores escassos, manter o edifício virou um desafio financeiro que obrigou a buscar novos usos para ele”, explica o empresário francês Matthias Navarro, que atua no setor.

Para alegria dos moradores, que naturalmente já tratam do tema à mesa dos bistrôs, o grupo escolhido para tocar o projeto reza a tradicional cartilha parisiense — não oferece nada de muito espetaculoso, tendo derrubado ideias de pretensão futurística, como a de cobrir a torre com vidros côncavos capazes de refletir a cidade de cabeça para baixo. “Nosso objetivo não é fazer do prédio um show, mas ajudar a dar impulso ao lugar”, esclarece o arquiteto Mathurin Hardel. A região localizada na banda esquerda do Rio Sena (a Rive Gauche), onde fica uma estação de trem e que, nos frenéticos anos 1920, era povoada por escritores e artistas, acumula equívocos saídos de pranchetas ultrapassadas — é tomada por um labirinto de passagens subterrâneas, um envelhecido centro comercial e um jardim espremido. Isso vai mudar sob a batuta do italiano Renzo Piano, o arquiteto celebridade que, na década de 1970, adicionou à cidade o Centro Georges Pompidou, o museu que aloja Picassos e Matisses, recém-fechado para uma vasta reforma. A expectativa é de que o desalinho urbano de Montparnasse ceda lugar a um calçadão ladeado por praças arborizadas para pedestres, ao jeito que Paris vem caminhando nestes dias.

FUTURO - O projeto do edifício repaginado: feito para ser sustentável
FUTURO – O projeto do edifício repaginado: feito para ser sustentável (Novelle AOM/RSI Studio/IDA+/.)
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Inaugurada em 1973, a torre agora nos holofotes levou à derrubada de ruas inteiras em um momento no qual a França procurava emitir sinais de que não se alimentava só do passado, mas sabia olhar adiante. De tão negativa a reação à sua onipresença, porém, decidiu-se por bem, depois daquele espanto estético, estabelecer um limite máximo de andares para novas construções: sete. Quem quisesse mais, que fosse para La Défense, fora da zona histórica, demarcada por um arco espelhado que em nada lembra o do Triunfo. Mas, em 2010, Paris cedeu à tentação de dobrar-se à verticalidade e, dando uma flexibilizada, abriu a trilha para exemplares como as Tours Duo, a dupla de prédios inclinados projetada pelo estelar Jean Nouvel, e a controversa Torre Triângulo, que começa a dar o ar da graça no horizonte. Passados dez anos regados a debates acalorados, a regra dos sete andares acabou voltando à cena.

Vista no conjunto, Paris conseguiu atravessar 2 000 anos de história mantendo firme monumentos, praças e edifícios que serviram de palco a capítulos diversos — de ruelas medievais e mansões opulentas outrora frequentadas pela aristocracia a cafés onde o pensamento humano saltou de patamar. Mas, como tantas metrópoles, também ela passou por cirurgias radicais, como no século XIX, quando, sob a sanha modernizadora do barão Haussmann, viu vielas serem engolidas por bulevares que lhes deram outra feição — para muita gente, mais fria e monótona. Em meio à eterna gangorra entre o novo e o velho, a cidade se gaba de ter semeado como poucas o conceito da preservação do patrimônio, curiosamente com a Revolução Francesa ainda em marcha. Enfurecidos, os insurgentes, que haviam colocado abaixo tanto da riqueza às margens do Sena, entenderam que a proteção à paisagem urbana seria peça vital à construção de uma identidade nacional, daí o advento de museus como o Louvre — que, aliás, foi outro a apanhar da multidão quando, em 1989, as famosas pirâmides de vidro e aço se misturaram ao leque de estilos do antigo palácio. Hoje, todo mundo gosta, fotografa e posta. Que a Torre Montparnasse faça por merecer.

Publicado em VEJA de 20 de março de 2026, edição nº 2987



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