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Casados há décadas, Marta e Rodolfo se deparam com uma surpresa ao chegar em casa: uma dupla de bandidos — formada por uma moça de 30 anos e um marmanjo de quase 50 — invadiu a residência para roubar o cofre deles e pretendem amarrá-los para conseguir fugir. Numa ironia do destino, e após alguns golpes de bengala, quem acaba de mãos atadas são os mais novos em cena. Em vez de chamar a polícia, porém, os nonagenários cooptam o casal de criminosos para executar um plano ousado e planejado há muito tempo: um assalto a banco. Enquanto eles são a mente por trás do roubo, os jovens farão o trabalho braçal. Para além da premissa de uma típica comédia pop brasileira, o que chama a atenção em Velhos Bandidos, novo longa dirigido por Cláudio Torres que chega aos cinemas no próximo dia 26, não é a beleza de Bruna Marquezine como a golpista Nancy, muito menos o carisma de Vladimir Brichta, que faz seu namorado. O brilho da produção reside em Fernanda Montenegro e Ary Fontoura — que, aos 96 e 93 anos, respectivamente, mostram que a palavra aposentadoria está a quilômetros de distância de seus vocabulários.
A desenvoltura de Fernanda e Fontoura no filme é a comprovação artística de um fenômeno mais abrangente: vivemos hoje a chamada era dos superidosos, que consiste no aumento da população de pessoas com mais de 80 anos que mantêm capacidades cognitivas e físicas. Segundo o IBGE, a expectativa de vida dos brasileiros subiu para 76,6 anos — um aumento de 4,3 anos de 2006 para cá. Como demonstrou um estudo científico publicado recentemente no periódico Journal of Aging Research, o novo status da velhice vem de um conjunto de fatores que vão da genética a uma combinação de rotina de exercícios com dietas equilibradas, o que reduz a chance de doenças cardíacas e câncer.

O mesmo estudo também mostra que um dos segredos dos superidosos é socializar mais para exercitar o cérebro e fugir do sedentarismo — um quesito em que diversos artistas brasileiros da atualidade tiram nota exemplar. Aos 86 anos, e após centenas de papéis na TV, no cinema e no teatro, Suely Franco vive um ótimo momento da carreira. Recentemente, interpretou a resiliente Rosa de Dona de Mim, novela das 7 de Rosane Svartman na Globo. Com atuação tocante, conquistou um contrato vitalício com a emissora — algo raro, já que a empresa tem optado por contratos por obra para reduzir custos. Uma verdadeira volta por cima da veterana que passou por dificuldades financeiras durante a pandemia e que viu as propostas de trabalho serem reduzidas conforme se tornou mais velha. “Esse contrato foi o maior susto da minha vida, e agora vou ter mais segurança para pagar as contas”, revelou Suely a VEJA.
A falta de ofertas de trabalho é, paradoxalmente, uma dura realidade a ser enfrentada pela leva de astros veteranos que fazem questão de se manter na tela. A escassez de papéis inspirou o movimento Quero Veteranos na TV, idealizado pelo empresário Marcus Montenegro. Agente de dezenas de atores, mas principalmente de atores mais velhos, ele viu a movimentação do mercado jogando seus clientes maduros para escanteio diante da ascensão de estrelas jovens — problema, aliás, que aflige não só o mercado brasileiro, mas até Hollywood. “Há mais de dez anos, tive a percepção de que os idosos iam sumindo das telas”, diz Montenegro. “Hoje, o mercado entendeu que o público tem identificação com eles, que são os responsáveis pela fidelização da audiência”, completa.

De fato, o carisma desses rostos familiares faz diferença. Prova disso é o sucesso de Tony Tornado, aos 95 anos, em sua participação na novela Êta Mundo Melhor!, da faixa das 6. Veterano que despontou na Jovem Guarda, nos anos 1960, ele planeja uma turnê musical e é cotado para a próxima novela das 9, Quem Ama Cuida, de Walcyr Carrasco e Claudia Souto. Para artistas como ele, Fernandona, Ari Fontoura ou Suely Franco, parar não é uma opção. “Enquanto me chamarem para trabalhar, eu estou indo”, diz Suely. Para sorte do público, eles não querem sossego.
Publicado em VEJA de 20 de março de 2026, edição nº 2987