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O caso Master incita novos conflitos dentro de instituições republicanas e entre seus integrantes. No episódio mais recente, entraram em rota de colisão o juiz André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
O juiz-relator da investigação sobre a fraude financeira bilionária fez questão de registrar no processo queixas sobre a relutância da procuradoria em admitir urgência para medidas requisitadas pelos policiais, entre elas a prisão do antigo dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, realizada nesta quarta-feira (4/3).
“A representação formulada pela Polícia Federal traz sérias evidências da continuada prática de crimes de gravíssima repercussão”, argumentou, acrescentando: “Diante desse robusto quadro fático-probatório, lamenta-se que a PGR (Procuradoria-Geral da República) diga que ‘não se entrevê no pedido (da PF), nem no encaminhamento dos autos […] a indicação de perigo iminente, imediato, que induza a extraordinária necessidade de tão rápida e necessariamente sucinta análise do pleito’, razão pela qual conclui que ‘não pode ser favorável aos pedidos cautelares, não podendo aboná-los’ antes que sua manifestação seja apresentada ‘no mais breve tempo possível’”.
“Lamenta-se” — prosseguiu — “porque, as evidências dos ilícitos e a urgência para adoção das medidas requeridas estão fartamente reveladas na representação da Polícia Federal e no curso desta decisão. Conforme documentado nos autos, também porque se está diante da concreta possibilidade de se prevenir possíveis condutas ilícitas contra a integridade física e moral de cidadãos comuns, de jornalista e até mesmo de autoridades públicas; porque há indicativos de ter havido acesso indevido dos sistemas sigilosos da Polícia Federal, do próprio Ministério Público Federal e até mesmo de organismos internacionais como a Interpol.”
Os lamentos públicos do juiz podem arrastar o procurador-geral para o centro da crise do Supremo, que cresce no ritmo da investigação sobre a rede de apoio político e institucional à turma do Master, enquanto executava-se uma fraude financeira bilionária.
Mendonça entrou no caso Master em substituição ao juiz José Antonio Dias Toffoli, afastado da relatoria no STF depois de revelações sobre seus negócios com os sócios do banco sob investigação.
Um teste nas relações entre o juiz e o procurador-geral será incontornável, caso Mendonça resolva estender as investigações às transações de Toffoli e, também, da banca de advocacia da família do juiz Alexandre de Moraes com os sócios do Master.
Quando assumiu o caso, Mendonça determinou aos delegados da Polícia Federal a preservação de sigilo sobre as investigações, com menção explícita aos “superiores hierárquicos”. Por esse critério, ele proibiu os agentes de falar sobre o inquérito com o diretor-geral da PF, o ministro da Justiça e o presidente da República.
No Supremo, o chefe da Polícia Federal tem sido alvo de crítica permanente, inclusive de Mendonça, por ter investigado um dos juízes, Toffoli, sem consulta prévia.