
As consequências da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã não se restringem ao futuro político do país persa. O Brasil não está entre os países mais prejudicados pela guerra, mas determinados setores da economia nacional são particularmente vulneráveis aos seus efeitos. Para além da alta do petróleo, que tem o potencial de elevar os custos logísticos do país, o agronegócio sofre com entraves no comércio internacional.
Petróleo mais caro e logística
O setor logístico observa atento os movimentos do petróleo, que podem impactar diretamente o custo de combustíveis utilizados para transportar cargas em todo o território brasileiro. O petróleo do tipo Brent, utilizado como referência de preço no mundo, disparou de 72 dólares por barril para mais de 80 dólares por barril em menos de três dias após a retomada dos mercados globais, na segunda-feira, 2, depois do início da guerra.
Antes mesmo da eclosão do conflito, a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) pedia que a Petrobras reajustasse o preço do diesel, combustível utilizado no transporte rodoviário de cargas. A defasagem do preço praticado pela estatal já era alta na semana passada.
A Abicom divulgou um relatório no dia 26 propondo uma elevação de 52 centavos no preço do litro para zerar a defasagem. A disparada do petróleo por consequência da guerra no Irã cria mais pressão para um eventual reajuste da Petrobras, por um lado, mas a volatilidade excepcional observada no mercado serve como pano de fundo para a empresa ser cautelosa antes de fixar um novo preço.
“O diesel já deveria ter sido reajustado”, diz o economista Maurício Nakahodo, que tem experiência na análise de commodities. O especialista avalia ser possível um reajuste do diesel por parte da Petrobras nos próximos 30 dias, mas ainda há muita incerteza em relação ao tema. Caso a alta expressiva do petróleo culmine em um aumento do preço do diesel no Brasil, o impacto na logística nacional é direto. A composição de custos do setor seria pressionada e, em decorrência disso, as cobranças de frete aumentariam.
Estreito de Ormuz e exportações
O início da guerra no Irã é marcado pela incerteza a respeito do que deve acontecer nos próximos dias e semanas. No centro dos impactos econômicos do conflito, está o bloqueio ao Estreito de Ormuz. O país dos aiatolás ameaçou atacar qualquer embarcação que tente atravessar o estreito, abalando boa parte do comércio do mundo com o Oriente Médio. O risco eleva os custos de frete do seguro das cargas.
“O tráfego pelo Estreito de Ormuz parece ter diminuído em meio a relatos de que algumas seguradoras estão reconsiderando ou suspendendo a cobertura de risco de guerra para embarcações que operam na região”, diz um relatório do Bradesco publicado na segunda-feira.
Um dos setores econômicos brasileiros mais pressionado pelo conflito é o agronegócio exportador. O Oriente Médio é um mercado relevante para produtos brasileiros como carne bovina, frango, açúcar, soja e milho, e o próprio Irã é um comprador relevante de grãos e derivados
Quase 35% de toda a carne de frango exportada pelo Brasil tem o Oriente Médio como destino, totalizando 3 bilhões de dólares anuais, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). A situação é semelhante no caso do milho, que movimenta 2,7 bilhões de dólares em vendas brasileiras para a região — equivalentes a 32% do total de exportações do grão. O próprio Irã, aliás, é o principal comprador de milho brasileiro, concentrando 23% das vendas de milho e quase 68% de tudo que os brasileiros vendem ao país persa.
Analistas apontam que as vendas de milho brasileiro não ficam totalmente comprometidas pela guerra, uma vez que o país não teria grande dificuldade em redirecionar as entregas. Além disso, as vendas de milho do Brasil para o Irã se concentram no segundo semestre do ano por razões sazonais, de modo que a duração do conflito será determinante para avaliar possíveis impactos.
Outro impacto relevante para o agronegócio brasileiro ocorre na cadeia de fertilizantes e insumos agrícolas. O Brasil depende fortemente da importação desses produtos, e países do Oriente Médio estão entre os principais fornecedores de fertilizantes nitrogenados, como a uréia, cuja produção depende do gás natural. A situação no Irã tem o potencial de encarecer significativamente esses insumos,a depender da duração do conflito. Dos 7,1 bilhões de dólares em produtos que o Brasil importou do Oriente Médio em 2025, 2,2 bilhões de dólares foram para fertilizantes, representando mais de 14% das importações brasileiras dessa classe de produtos.