O caso do Banco Master expõe fragilidades institucionais no Brasil e evidencia a necessidade de um órgão regulador que vá além das atribuições do Banco Central e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), afirmaram advogados ouvidos por Veja nesta quarta-feira, 4. As declarações foram feitas após questionamentos sobre o envolvimento de Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor do Banco Central, e de outro servidor da instituição no episódio.

Segundo a Polícia Federal, Paulo Sérgio e o servidor Belline Santana participavam de um grupo de WhatsApp com Daniel Vorcaro e atuavam internamente no BC para facilitar a aprovação e a fiscalização do banco ligado ao empresário. Consta ainda que o ex-diretor revisava minutas de documentos e comunicações institucionais elaboradas pelo Banco Master e destinadas ao próprio Banco Central, sugerindo alterações antes da formalização perante a autarquia.

As investigações indicam também que Paulo Sérgio atuava como interlocutor interno dos interesses do Banco Master dentro do BC, buscando influenciar a análise de processos administrativos, fornecer informações sobre procedimentos em curso e indicar estratégias para contornar dificuldades regulatórias enfrentadas pela instituição.

Em algumas situações, segundo a apuração, o investigado teria alertado previamente o controlador do banco sobre movimentações financeiras identificadas pelos sistemas de monitoramento da autarquia, permitindo a adoção de medidas para mitigar questionamentos regulatórios.

Para Fernando Canutto, advogado especializado em direito bancário, o caso revela falhas na estrutura da autarquia responsável por fiscalizar o sistema financeiro. Embora existam mecanismos de compliance e regras para garantir a segurança do sistema, a instituição não é totalmente blindada contra riscos de corrupção.

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“Trata-se de uma falha no Banco Central nesse período das gestões de Campos Neto e Gabriel Galípolo. No entanto, é muito difícil apontar um culpado além do servidor e do ex-diretor, que supostamente teriam cometido o delito”, afirma Canutto.

O advogado observa que o ex-diretor utilizava o celular pessoal, o que dificulta a fiscalização de mensagens nos mesmos moldes aplicados a aparelhos corporativos. “A alternativa seria o BC interceptar o celular particular dos funcionários, o que violaria direitos individuais e a legislação de privacidade”, conclui.

Marcelo Godke, advogado especializado em direito bancário e professor da Faculdade Belavista, avalia que casos como esse evidenciam a necessidade de uma autarquia com visão integrada do mercado de capitais e do segmento bancário. Segundo ele, o Banco Master captava recursos via CDBs, supervisionados pelo BC, mas aplicava os valores em fundos atrelados a precatórios — instrumentos de baixa liquidez — sob supervisão da CVM.

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Embora cada órgão acompanhasse uma parte das operações, não haveria integração suficiente de informações para oferecer uma visão completa do risco. “Seria necessário um órgão com competência ampla e visão sistêmica. Assim, poderia identificar o descasamento entre os CDBs e os precatórios e exigir maior índice de capital principal para reforçar a liquidez do banco, o que ajudaria a evitar uma crise”, argumenta Godke.

Delação premiada é uma possibilidade no caso Master?

Os advogados explicam que, caso Daniel Vorcaro venha a ser considerado culpado, a delação premiada pode ser uma alternativa. Segundo Filipe Papaiordanou, especialista em direito penal econômico pela Universidade de Coimbra, o instrumento pode resultar em redução de pena, a depender da relevância e da veracidade das informações prestadas.

“A lei não estabelece critérios objetivos para a dosimetria nesse caso; cabe ao juiz avaliar a utilidade das informações e sua comprovação”, afirma. Vorcaro foi preso novamente nesta quarta-feira, 4. Desta vez há suspeitas de que o banqueiro esteja fazendo obstrução de justiça em uma tentativa de atrapalhar as investigações.

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Vorcaro é considerado inocente até eventual condenação definitiva, cabendo exclusivamente à Justiça definir sua responsabilidade. Em nota, a defesa do empresário informou que ele não pretende firmar acordo de delação premiada. Sobre a prisão realizada nesta quarta-feira, os advogados afirmam que o empresário sempre esteve à disposição das autoridades, colaborando de forma transparente com as investigações e jamais tentou obstruir o trabalho dos investigadores ou da Justiça.

“A defesa nega categoricamente as alegações atribuídas a Vorcaro e confia que o esclarecimento completo dos fatos demonstrará a regularidade de sua conduta. Reitera sua confiança no devido processo legal e no regular funcionamento das instituições”, diz a nota. Na avaliação dos especialistas, o caso serve de alerta para o Banco Central, a CVM e outras autarquias. A fiscalização do sistema financeiro não pode ser negligenciada, e eventuais falhas devem resultar em aprimoramentos institucionais.



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