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O maior dano aos Estados Unidos até agora foi causado por um aliado, o Kuwait, que derrubou por engano, num caso de fogo amigo, três caças F-15E, com as tripulações ejetadas. A explosão na embaixada americana na Arábia Saudita foi superficial. Israel enterrou nove mortos, um golpe duro, fruto de um míssil iraniano que furou o invisível escudo protetor em torno do país e explodiu diretamente sobre um abrigo antibombas – nada protege de um impacto direto como esse. É doloroso, mostrando como, se pudesse, o Irã estaria exterminando a população civil de Israel. Mas está longe de ser o efeito catastrófico que o regime iraniano gostaria de ter provocado.

Muito pode mudar? Sem dúvida nenhuma. Guerras, como sabemos, têm desdobramentos imprevisíveis. Mas o balanço até agora mostra a espantosa eficiência dos ataques localizados dos Estados Unidos e de Israel. Donald Trump gosta de falar muito, mas tem contido, comparativamente, a euforia que a decapitação em massa da liderança iraniana, com o aiatolá Ali Khamenei no topo da lista, poderia provocar. A tentativa de rachar o mundo árabe, atingindo doze países da região até agora, está obtendo o efeito contrário: todos sabem que só os Estados Unidos podem protegê-los.

O chefe do Estado-Maior, general Dan Caine, cuja lealdade chegou a ser colocada em jogo antes do início da guerra, foi um exemplo de disciplina, contenção e comando impecável da mais poderosa força militar da história. Lamentou as quatro baixas sofridas, pelos americanos, mas acima de tudo exaltou o profissionalismo das forças sob seu comando, que só nas primeiras 24 horas lançaram mil ataques contra o Irã. São ataques focados na infraestrutura militar, a esta altura totalmente torpedeada, mas longe de ser indiscriminados.

Por causa disso, não há o lamentável número de vítimas civis, como aconteceu em Gaza – um teatro operacional totalmente diferente, com as forças do Hamas escondidas em túneis debaixo de estruturas civis. Quem esperava ver um resultado parecido e já tinha os protestos preparados, pode ter ficado decepcionado. Com todo o tremendo poder bélico desfechado pela Fúria Épica, não há mortes em massa – exceto no caso da cúpula do regime, decapitada logo nos primeiros trinta segundos do início dos ataques, num resultado estarrecedor jamais visto na história das guerras.

‘SANGUE SOBRE NOSSA GENTE’

Até Pete Hegseth, que costuma ser ridicularizado pela oposição como secretário da Defesa (ou da Guerra, como se renomeou) por ter sido tirado de um programa diurno da Fox diretamente para o comando do Pentágono, fez uma defesa razoável da intervenção – sujeita, obviamente, a todos os contraditórios da democracia. Lembrou que estava na ativa como militar quando houve a invasão do Iraque e que os erros dessa intervenção não serão repetidos. A história, na sua argumentação, não se repete.

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Mas como justificar uma guerra que parece não ter sido provocada? Foram “47 longos anos” de um regime selvagem que lançou “sangue sobre nossa gente, carros-bomba em Beirute, ataques de foguete contra nossos navios, assassinatos em nossas embaixadas, bombas na beira das estradas no Iraque e no Afeganistão”. É tudo verdade, como também é um argumento razoável apregoar que um regime assim não poderia estar tão perto de ter uma bomba nuclear. Mas será suficiente para convencer os americanos?

Muito dependerá dos desdobramentos da Fúria Épica. Baixas em grande escala ou o afundamento de um navio seriam vistos como um sacrifício excessivo e desnecessário. O apoio já é muito baixo: segundo uma pesquisa Reuters/Ipsos, apenas 27% aprovam os ataques; 43% são contra e 29% estão em dúvida.

Trump, que tem cabeça de apostador, joga assim o seu futuro. Qualquer coisa que seja interpretada como temeridade no uso da força redundaria numa enorme reação negativa da opinião pública e arruinaria muitas candidaturas republicanas na eleição de novembro para o Congresso, deixando seu governo de mãos amarradas.

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SOFRIMENTO DE INFLUENCIADORES

A mídia o massacraria – e um exemplo já foi dado pelos necrológios de grandes jornais sobre o aiatolá Khamenei, um ser maligno que espalhou o terror e a morte dentro e fora das fronteiras do Irã. No Washington Post, foi lembrado quase como um bom velhinho de aparência avuncular, conhecido “pela barba espessa e o sorriso fácil”, fora o gosto por poesia persa.

É, simplesmente, inacreditável, mas não incompatível com o estado de espírito em que o ódio a Donald Trump justifica até elogios ao aiatolá pulverizado.

O regime que ele chefiou durante mais de trinta anos está extremamente enfraquecido, embora ainda seja impossível dizer se será derrubado ou pelo menos substituído por uma versão menos radical.

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Da mesma forma, o futuro de Trump é uma incógnita, mesmo se uma das maiores pressões do momento venha dos influenciadores estrangeiros que, coitadinhos, ficaram presos pelo fechamento do aeroporto de Dubai, tendo imaginado que o emirado seria um oásis eternamente aberto a um estilo de vida luxuoso e autoindulgente. A realidade do Oriente Médio não pode ser riscada do mapa e isso é um fato da vida que ainda provoca muitas surpresas, embora em Dubai, sendo Dubai, o governo tenha anunciado que vai pagar todas as diárias extras dos turistas obrigados a prolongar a estada no pequeno emirado por causa da guerra.

Num desdobramento muito mais sério, sem precedentes nas últimas décadas, mas certamente influenciado pelos Estados Unidos, o governo libanês defendeu “a imediata proibição de todas as atividades militares do Hezbollah” em território do Líbano e “a entrega de suas armas” ao Estado. Por muito tempo, o governo libanês foi praticamente uma extensão do grupo xiita. As mudanças estão avançando rápido e os bombardeios israelenses contra posições do Hezbollah podem ter apressado os novos pontos de vista.

Como Trump já avisou que a parte mais pesada do ataque ainda nem começou, novas e enormes surpresas podem estar já se armando.



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