
Classificada como uma “ameaça à saúde pública” pela Comissão Lancet, ligada ao renomado periódico científico, a dependência em bets e demais jogos de aposta virtuais está no centro de uma iniciativa do Ministério da Saúde que entrou em atividade nesta terça-feira, 3, e vai oferecer gratuitamente teleatendimento para pessoas que enfrentam o problema que afeta a saúde mental e financeira de brasileiros.
As consultas em vídeo serão realizadas em parceria com o Hospital Sírio-Libanês, localizado em São Paulo, e a estimativa inicial da pasta é de oferta de atendimento a 600 pessoas por mês. O investimento foi de 2,5 milhões de reais e o serviço pode ser acessado pelo aplicativo Meu SUS Digital.
Assim como em outros países, a dependência em jogos de azar online está levando ao endividamento de famílias, depressão, ansiedade e, em casos mais extremos, suicídios. Um balanço do ministério mostra que foram realizados 6.157 atendimentos presenciais relacionados ao problema no ano passado. No Brasil, segundo estimativa da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), 4 milhões de pessoas têm algum tipo de transtorno relacionado às apostas.
Diante deste cenário, surgiu a necessidade de ampliar o serviço com uma alternativa que dribla o temor de buscar ajuda para uma situação que está fora de controle e que costuma ser alvo de julgamentos de familiares e amigos.
“Estamos introduzindo o teleatendimento, porque percebemos que, dificilmente, a pessoa com problemas relacionados a jogos de apostas procura um serviço de saúde presencialmente. Muitas vezes, há dificuldade de admitir o problema, vergonha e ainda muita estigmatização”, afirmou, durante evento de simulação do serviço, o ministro da Saúde Alexandre Padilha.
A ação faz parte de um conjunto de medidas para mitigar os danos causados pela dependência em apostas, que se tornou ainda mais traiçoeira com a possibilidade de ter um tipo de “cassino de bolso”, considerando que os jogos estão instalados no celular e disponíveis 24 horas por dia.
Nesse combo, há a Plataforma de Autoexclusão Centralizada, que permite que a própria pessoa exclua e bloqueie seu o acesso a todos os sites de apostas autorizados no Brasil, e o canal de dados dos ministérios da Saúde e da Fazenda para acompanhamento e oferta de ajuda batizado como Observatório Saúde Brasil de Apostas.
Como funciona o teleatendimento
O primeiro passo para utilizar o serviço é fazer o download do aplicativo Meu SUS Digital e fazer o login com a conta gov.br. Ao entrar, buscar a opção “Miniapps” e clicar em “Problemas com jogos de apostas?”.
Neste canal, será apresentado um autoteste validado por especialistas e estruturado com base em evidências científicas para identificação de possíveis sinais de risco para dependência. Casos moderados e elevados já serão encaminhados de forma automática para o teleatendimento, que é direcionado para pessoas com mais de 18 anos.
“As consultas são realizadas por vídeo, duram em média 45 minutos e fazem parte de ciclos estruturados de cuidado, que podem incluir até 13 consultas por paciente – seja em grupo com sua rede de apoio ou individualmente. O atendimento é gratuito e confidencial”, informou o ministério.
Psicólogos e terapeutas ocupacionais integram as equipes que vão fazer o atendimento e, caso seja necessário, psiquiatras podem dar suporte. Para ajudar no contato com os serviços de saúde disponíveis para os pacientes, haverá a participação de assistentes sociais e equipes de medicina da família.
A questão é considerada alarmante e tem sido acompanhada por pesquisadores pelo rápido comprometimento financeiro e danos à saúde mental. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima acometimento de 1,2% da população mundial por transtornos por jogos e apostas, e o grupo do Lancet calcula que as perdas líquidas globais dos usuários podem chegar a 700 bilhões de dólares até 2028.