
Quem vai chorar o aiatolá Ali Khamenei, morto ou de asas cortadas, e sua turma de fundamentalistas do Irã? Homens que, há menos de um mês mataram mais de trinta mil de seus compatriotas, mandando forças da repressão entrar em hospitais e disparar na testa de manifestantes que estavam em tratamento por ferimentos nos protestos? Ou que batiam em mulheres por deixar aparecer uma mecha de cabelo debaixo do véu obrigatório?
Só os antiamericanos mais descompensados podem lamentar seres tão malignos. Mas também é justa a pergunta: como Donald Trump pode justificar, aos americanos e ao resto do mundo, os ataques aéreos em grande escala que estão se desdobrando, com consequências ainda imprevisíveis, mas que com certeza já mudaram profundamente o Oriente Médio a ponto de um míssil iraniano ter incendiado um hotel em Dubai, um país árabe que pretende ser um oásis para estrangeiros no Oriente Médio?
Os iranianos alinhados ao regime teocrático gritam “Morte à América” desde 1979, quando a revolução dos turbantes derrubou o regime monárquico do xá Reza Pahlavi. Também planejaram ter bombas nucleares desde suas origens – e até com um bom argumento, do ponto de vista da própria defesa, considerando-se a hostilidade dos vizinhos árabes aos radicais xiitas que queriam mudar – e dominar – o mundo islâmico.
Quando o regime estava ainda em estado de balbúrdia, com a dissolução das forças armadas do xá, o Iraque de Saddam Hussein tentou aproveitar a vulnerabilidade para pegar uma saída maior ao mar – e ao petróleo. Desfechou uma guerra que durou dez anos e cujo fim negociado, o aiatolá Khomeini, o fundador do regime teocrático, comparou a um copo de veneno.
LIQUIDIFICADOR GIGANTE
Nada mudou essencialmente: os iranianos continuaram a mentir como sempre mentiram sobre o programa nuclear bélico que ergueram nas barbas do mundo. Conseguiram, provavelmente, salvar reservas de urânio enriquecido dos ataques aéreos dos Estados Unidos e Israel de junho do ano passado, mas perderam instalações importantes para sua produção.
Estariam planejando algo tão perverso que Trump julgou ser necessário desfechar agora uma versão muito mais robusta da operação de junho? Ou está o presidente americano pensando numa jogada mais estratégica na qual só será possível ter um Oriente Médio com um projeto viável de paz se for eliminada a principal fonte de armas e financiamento de atores altamente perigosos como Hamas e Hezbollah?
Existem ainda gigantescas perguntas em aberto. Por exemplo, Trump exortou as forças de segurança a baixar armas em troca de impunidade. Mas a quem entregariam as armas – o que obviamente não vão fazer – e quem bancaria sua impunidade? Não existem forças oposicionistas viáveis que garantam uma mudança organizada de regime – como poderia ter havido na Venezuela, onde Trump optou pela colaboração com os asseclas de Nicolás Maduro. Também não existe, obviamente, uma força estrangeira invasora, como aconteceu no Iraque.
Por mais repugnante que seja, o regime iraniano é reconhecido pela comunidade internacional, representa o país na ONU e preenche todos os requisitos para tal, como ter o controle territorial sobre o país.
Os verbos talvez devessem ter sido usados no passado, pois agora tudo foi colocado num liquidificador gigante e chacoalhado a limites que ainda desconhecemos.
‘PROGRAMA NUCLEAR ASSASSINO’
Trump terá que justificar aos americanos por que escolheu o caminho da guerra nesse momento. Isso será cobrado pelo Congresso, pela mídia e pela opinião pública, pois assim funcionam as democracias.
As Forças de Defesa de Israel já fizeram seu arrazoado, nos seguintes termos: “A República Islâmica arrastou a região para esta campanha, mas esta não é uma guerra nossa contra o povo iraniano”.
“O regime é responsável por desperdiçar os recursos do povo em organizações terroristas, mísseis e um programa nuclear assassino contra Israel e a região”.
“Israel está agindo em coordenação com os Estados Unidos apenas contra o regime e como parte de nosso direito a nos defender. Não somos inimigos do povo iraniano, mas inimigos da ditadura que os oprime”.
‘VARRER MÍSSEIS DO MAPA’
São argumentos fortíssimos, principalmente do ponto de vista de Israel. Irá Trump fazer uma argumentação similar ou espera que nem precise chegar lá se a operação aérea for extremamente bem sucedida?
Como o sucesso passou a ser definido pela mudança de regime, é uma condição tremenda. Mas Trump optou pelo caminho mais arriscado. “Vamos destruir os mísseis deles e varrer do mapa a sua indústria de mísseis”, disse ele em Mar-a-Lago, onde foi passar o fim de semana como se o mundo tal como o conhecemos não estivesse em total polvorosa. A linguagem pura e dura do poder é bancada pelo fato de que ele simplesmente tem uma capacidade bélica incomparável e o Irã nem sequer conseguiu recuperar a defesa antiaérea destruída por Israel na guerra de junho passado.
Não de pode dizer que Trump não deu uma oportunidade a negociações. Seus enviados especiais fizeram todo o processo: aceitaram a intermediação de Omã, apresentaram propostas, ouviram desaforos da parte iraniana – sendo que os diplomatas envolvidos eram teoricamente os da linha mais flexível.
Como bom representante da linha dura, o aiatolá Khamenei achou melhor ameaçar que o porta-aviões Abraham Lincoln seria afundado – uma versão muito mais extremista do que as dancinhas provocativas que Nicolás Maduro fazia apenas dias antes de ser capturado.
O mundo pós-Maduro e pós-Khamenei é outro.