
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, afirmou nesta quarta-feira, 25, que conversou por telefone com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, um dia após a operação militar que resultou na morte de Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como “El Mencho”, chefe do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG).
Segundo Sheinbaum, o telefonema ocorreu na segunda-feira e durou cerca de oito minutos. “Ele perguntou o que estava acontecendo no México, como estavam as coisas. Foi uma chamada breve para saber a situação”, disse a mandatária a jornalistas na Cidade do México.
No domingo, a Casa Branca confirmou que os Estados Unidos forneceram apoio de inteligência às autoridades mexicanas durante a ofensiva que culminou na morte de Oseguera Cervantes — considerado por Washington um dos narcotraficantes mais procurados do mundo.
Um golpe histórico contra o CJNG
A morte de “El Mencho” representa um marco na guerra contra o narcotráfico no México. O CJNG é apontado por autoridades americanas e mexicanas como uma das organizações criminosas mais poderosas e violentas do continente, com atuação em dezenas de países e envolvimento direto no tráfico de fentanil para os Estados Unidos.
Relatórios anteriores da Drug Enforcement Administration (DEA) já classificavam o grupo como peça-chave na crise de opioides que atinge cidades americanas. A cooperação entre Washington e Cidade do México, embora antiga, tem sido marcada por tensões diplomáticas e divergências sobre soberania e estratégia de segurança.
Durante o governo anterior no México, houve atritos após operações unilaterais americanas e críticas públicas sobre a eficácia do combate aos cartéis.
A confirmação de que houve compartilhamento de inteligência nesta operação sinaliza uma possível reconfiguração dessa relação sob Sheinbaum.
Cooperação sob pressão política
A conversa entre Sheinbaum e Trump ocorre em um momento delicado para ambos os governos.
Nos Estados Unidos, o combate ao tráfico de fentanil tornou-se tema central do debate político e eleitoral.
Trump tem defendido publicamente medidas mais duras contra cartéis mexicanos, inclusive classificando-os como organizações terroristas em declarações passadas.
No México, por sua vez, qualquer indício de ingerência estrangeira costuma gerar reação política. A Constituição mexicana limita a atuação de agentes estrangeiros em território nacional, e o governo insiste que operações são conduzidas pelas forças locais, ainda que com cooperação técnica.
Ao confirmar o apoio de inteligência, a Casa Branca evitou detalhar a extensão da participação americana. Especialistas em segurança ouvidos por veículos como The Washington Post e Reuters observam que o compartilhamento de informações de satélite, interceptações e monitoramento financeiro é prática comum em operações de alto valor estratégico.
Impacto regional
A eliminação de Oseguera Cervantes pode provocar rearranjos internos no CJNG e intensificar disputas entre facções rivais, segundo analistas. Historicamente, a morte ou prisão de líderes do narcotráfico no México levou a ciclos de fragmentação e aumento temporário da violência.
Sheinbaum, porém, apresentou a operação como demonstração da capacidade do Estado mexicano.
A presidente tem defendido uma estratégia que combina inteligência, ações cirúrgicas e programas sociais, em contraste com políticas anteriores marcadas por confrontos abertos entre Forças Armadas e cartéis.
Relação bilateral em novo momento
O telefonema de oito minutos pode parecer protocolar, mas carrega simbolismo político.
Ao buscar informações diretamente com Sheinbaum, Trump sinaliza interesse direto no desdobramento da segurança mexicana, tema que impacta imigração, comércio e saúde pública nos EUA.
Mas a cooperação recente sugere um pragmatismo renovado na relação bilateral. Ainda assim, o desafio permanece: reduzir o fluxo de drogas sintéticas para o norte sem comprometer a estabilidade interna mexicana.