
A polilaminina virou um dos assuntos mais comentados no Brasil — e também um terreno fértil para exageros. Apresentada por muitos como uma possível virada de chave no tratamento de lesões medulares, como tetraplegia e paraplegia, a substância já foi apelidada nas redes de “proteína de Deus”, em uma referência ao seu formato em cruz. Mas, em meio a empolgação, cresceram também interpretações distorcidas sobre o que, de fato, a pesquisa já mostrou.
A responsável pelo estudo, a bióloga Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), esclareceu alguns pontos importantes durante participação no programa Roda Viva, da TV Cultura, no domingo, 23.
A seguir, veja os principais mitos esclarecidos pela pesquisadora:
“A cura definitiva foi encontrada”
Sampaio desmentiu o uso da palavra “cura” para as lesões medulares. A bióloga esclareceu que o termo é muito forte e que, no momento, o que existe é uma substância promissora, mas que a pesquisa ainda está em andamento.
“A polilaminina serve para qualquer tipo de lesão medular”
Embora muitos acreditem que a substância poderá ser utilizada em qualquer caso de lesão medular que resulte em perda de movimentos, Sampaio explicou que a polilaminina vem sendo estudada apenas para lesões nas fases aguda (casos recentes, na primeira semana) e subaguda (até três meses).
“A substância perdeu a patente internacional por falta de verba da UFRJ”
A pesquisadora corrigiu e esclareceu uma fala imprecisa que ela mesma havia feito anteriormente de que a universidade deixou de pagar a patente por falta de verbas. Ela explicou que, na verdade, houve uma avaliação técnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro que concluiu que os pedidos de patente não seriam concedidos nos Estados Unidos e na Europa. Portanto, a suspensão do pagamento ocorreu por uma decisão técnica de não arcar com custos altos por patentes que provavelmente seriam negadas, e não por falta de verbas. A pesquisadora diz ter discordado da decisão.
“A laminina é cara”
Sampaio desmentiu que a laminina seria excessivamente cara. Ela explicou que não sabe exatamente qual será o custo de produção em larga escala pelo laboratório (Cristália), mas usou a sua experiência como pesquisadora para dar uma dimensão do valor. Quando ela comprava a laminina sintética de empresas que fornecem insumos para laboratórios de pesquisa, a quantidade suficiente para tratar um paciente custava entre 100 e 150 dólares — algo em torno de R$700.
“Todos pacientes que receberam polilaminina voltaram a andar”
Sampaio esclareceu que nem todos os participantes do estudo voltaram a andar ou recuperaram completamente os movimentos. Ela explicou que os médicos utilizam uma escala — chamada AIS — que vai de A (lesão completa, sem movimento e sensibilidade) até E (recuperação total). Quando ela afirma que 75% dos pacientes (6 de 8) tiveram melhora, quer dizer que essas pessoas saíram do nível “A” (paralisia total) e passaram a apresentar algum controle motor (nível “C”), mas a maioria ainda possui algum grau de paraplegia ou tetraplegia. A pesquisadora também esclareceu que o paciente Bruno Freitas, considerado o principal exemplo de sucesso da polilaminina — já que supostamente recuperou totalmente os movimentos dos braços e das pernas, voltando a caminhar —, é resultado de uma combinação de fatores, como a rapidez extrema (ele recebeu a injeção de polilaminina apenas 24 horas após o acidente de carro, o que é muito raro na vida real) e o esforço contínuo (Bruno fez dois anos de fisioterapia intensiva e segue em reabilitação).