Após apresentar alta no lucro e avanço das provisões puxado pela alta da inadimplência, o CEO do Santander, Mario Leão, definiu como guiará seu modelo de negócio ao longo de 2026. O executivo busca crescer no segmento de alta renda da pessoa física e em médias e pequenas empresas. A estratégia foi traçada com base na perspectiva do banco no cenário macroeconômico, que deve manter pressão sobre a inadimplência nas carteiras do agronegócio, pessoas físicas e pequenas empresas.

No início da manhã, o Santander reportou lucro líquido de 4,08 bilhões de reais no terceiro trimestre de 2025, alta de 6% na comparação com o mesmo período de 2024. A informação foi divulgada em documento enviado ao mercado nesta quarta-feira, 4. O resultado ficou dentro do esperado pelo consenso do BTG Pactual, que aguardava um lucro líquido de 4,06 bilhões de reais no quarto trimestre de 2025. No acumulado de 2025, o Santander registrou lucro de 15,6 bilhões, avanço de 12,6% na comparação com o ano anterior.

Embora a companhia tenha apresentado alta no lucro, a margem financeira contraiu 4,0% entre o quarto trimestre de 2025 e o quarto trimestre de 2024, chegando a 15,3 bilhões de reais no ciclo de outubro a dezembro de 2025. “A baixa é explicada pela queda na margem de mercado, impactada pela sensibilidade negativa ao aumento da taxa de juros”, disse Gustavo Alejo, CFO do Santander.

A margem com mercado ficou negativa em 1,48 bilhão de reais. O fator já era algo esperado pelo mercado, visto que a própria companhia já havia antecipado em teleconferências passadas que o segmento seguiria pressionado. O número acabou sendo compensado parcialmente pelo incremento da margem de clientes, beneficiada principalmente por volume, mix e disciplina de preço, contribuindo para o aumento do spread (ganho com juros).

A rentabilidade do Santander, medida pelo retorno sobre o patrimônio líquido anualizado (ROEA, na sigla em inglês), foi de 17,6%, queda de 0,1 ponto percentual na comparação com o mesmo período do ano passado. O número representa estabilidade em relação ao terceiro trimestre de 2025. A cifra ficou dentro do esperado pelo mercado, que também aguardava uma manutenção no patamar de rentabilidade do banco.

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Qualidade da carteira de crédito pesa para o mercado

O ponto em questão que pesa sobre o balanço, e faz as ações caírem 1,1% no pregão desta quarta-feira, é a qualidade dos ativos na carteira de crédito do banco. A companhia tem anunciado em suas últimas divulgações de resultado que tem elevado a régua na concessão de crédito, o que gerou expectativas sobre melhora na inadimplência e redução nas provisões, algo que não aconteceu neste trimestre.

As Provisões para Devedores Duvidosos (PDD) chegaram a 6,1 bilhões de reais no quarto trimestre de 2025, alta de 2,9% na comparação com o mesmo período de 2024. A alta foi puxada pela inadimplência acima de 90 dias, que chegou a 3,7%, avanço de 0,5 ponto percentual na comparação com o mesmo período do ano passado.

Gustavo Alejo, CFO do Santander, afirmou durante a coletiva com jornalistas que metade dessa alta da inadimplência, 0,25 ponto percentual, aconteceu por causa da nova norma do Conselho Monetário Nacional (CMN), a 4.966. A regulação exige que os bancos antecipem a inadimplência por perda esperada e não por perda ocorrida. A grosso modo, a instituição financeira deve antecipar possíveis calotes e cobri-los antes mesmo que eles aconteçam.

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No entanto, vale lembrar que a outra metade da alta da inadimplência vem do próprio portfólio do banco, o que para o CEO deve continuar em alguns setores. Segundo Leão, os segmentos de pequenas empresas, agronegócio e baixa renda da pessoa física devem continuar com a inadimplência pressionada. Segundo ele, essa deterioração advém do cenário macroeconômico devido à Selic elevada, que encarece o crédito e dificulta o pagamento desses segmentos.

“Mesmo com os cortes de juros, esperamos que a Selic deve encerrar 2026 em 12% ao ano, o que encarece o crédito da mesma forma, visto que o juro continua em um patamar de dois dígitos. Desse modo, prevemos um ano desafiador nesse sentido por causa do cenário macroeconômico”, afirmou o executivo.

Desse modo, a companhia deve continuar com o foco em limpar as carteiras, com créditos de clientes mais resilientes como a alta renda. “Estimamos crescer dois dígitos na alta renda ao longo desse ano. Não nos importamos em crescer abaixo da média do mercado em outros segmentos, mas vemos a alta renda, grandes e médias empresas como algo necessário para o crescimento da carteira”, afirmou.

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Questionado por VEJA sobre qual seria a participação de mercado que o Santander deve buscar nessa disputa pela alta renda, o executivo preferiu não precisar o número. Entretanto, ele pontuou que o banco sabe que entrar neste segmento agora é um grande desafio. Isso porque há empresas atuando com forte presença no segmento, como o Itaú. Além disso, há também bancos que anunciaram focar nessa faixa de renda recentemente, como Bradesco e Nubank.

“Sabemos que entrar nesse segmento neste momento é um grande desafio, por isso, vamos disputar a principalidade do cliente com um serviço de maior qualidade. No setor de investimentos, por exemplo, um assessor do Santander atende 150 clientes. Já na concorrência, a média é de 700 clientes por assessor de investimentos”, diz o executivo.

Em suma, o Santander espera um ano ainda de transição na qualidade dos ativos de sua carteira de crédito, que deve continuar pressionada. No entanto, a promessa da companhia é aumentar a participação da alta renda na carteira junto com médias empresas. Seguindo essa receita com uma concessão de crédito restrita, o CEO promete chegar a uma rentabilidade (ROE) de 20% no médio prazo.



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