Nenhuma declaração oficial, nenhuma agenda divulgada, nenhuma explicação. O silêncio cercou a chegada de um avião militar americano a Ushuaia, no sul da Argentina, durante o fim de semana. Um dia depois, a Embaixada dos Estados Unidos confirmou que se tratava de uma delegação de integrantes do Congresso.
No entanto, o governo argentino não forneceu mais informações.
A localização desse pouso não é coincidência. Ushuaia, situada a quase 3 mil quilômetros de Buenos Aires, é uma cidade fundamental para a conectividade marítima internacional, porta de entrada para a Antártica e passagem estratégica entre os oceanos Atlântico e Pacífico.
A chegada do voo também coincidiu com a recente intervenção do governo federal no porto local, fato que alimentou ainda mais as suspeitas políticas e as críticas da oposição em relação ao governo do presidente argentino Javier Milei.
Três dias depois, a mesma delegação desembarcou na cidade de Neuquén para visitar um reservatório petrolífero de Vaca Muerta naquela província.
Tanto a equipe do governador da Terra do Fogo, Gustavo Melella, opositor do governo nacional, quanto a de Neuquén, representada por Rolando Figueroa, aliado do governo, confirmaram à CNN a chegada do avião e as duas viagens.
No entanto, ambas alegaram não ter conhecimento prévio da visita, nem terem participado de qualquer reunião com a delegação americana.
Até o momento, o governo argentino não forneceu detalhes sobre essa visita. A CNN contatou fontes oficiais que também se recusaram a comentar.
Um comunicado da Embaixada dos EUA confirmou apenas que “uma delegação bipartidária de integrantes do Comitê de Energia e Comércio da Câmara dos Representantes dos EUA” visitou a Argentina.
“A visita inclui reuniões com autoridades governamentais e principais partes interessadas para tratar da degradação dos ambientes naturais, do processamento de licenças para mineração e gestão de resíduos, do processamento de minerais críticos, da pesquisa em saúde pública e da segurança médica”, detalhou o documento.
Localização com grande fonte de recursos
O porto de Ushuaia é um dos principais ativos econômicos da província. Embarcações turísticas, pesqueiras e de carga operam a partir dali, além de navios que abastecem expedições à Antártica.
Aproximadamente 700 navios passam por seus cais anualmente, gerando um orçamento anual de cerca de 25 bilhões de pesos (aproximadamente US$ 17,9 bilhões), segundo a Autoridade Portuária Provincial.
Enquanto isso, Neuquén abriga Vaca Muerta, uma das maiores reservas de hidrocarbonetos não convencionais do mundo. O campo é considerado o segundo maior em recursos de gás e o quarto maior em petróleo globalmente, atraindo investimentos de mais de 30 empresas nacionais e internacionais.
O potencial energético tornou a região um pilar central da estratégia econômica do país e um foco constante de interesse para investidores estrangeiros nos setores de energia e recursos estratégicos.
Intervenção no porto de Ushuaia
A chegada da aeronave militar americana coincidiu com um momento institucional delicado na Terra do Fogo. Desde 20 de janeiro, o governo nacional mantém o controle administrativo do porto de Ushuaia, que agora está sob a jurisdição da ANPyN (Administração Nacional de Portos e Navegação).
A medida afastou a Direção Provincial de Portos, autoridade portuária desde 1992, das operações gerais e baseou-se numa auditoria realizada em outubro de 2025 que detetou falhas estruturais e de segurança, falta de investimento em obras e alegadas irregularidades na utilização de fundos.
O governo da Terra do Fogo rejeita os argumentos do jornal Nação e descreve a intervenção como um “ultraje” contra o federalismo e uma violação da Constituição.
Alinhamento geopolítico com os EUA
A reaproximação entre o governo de Javier Milei e os Estados Unidos já havia ocorrido em Ushuaia. Em abril de 2024, o presidente argentino se reuniu naquela cidade com a então chefe do Comando Sul, general Laura Richardson, em uma visita oficial com o objetivo de fortalecer a cooperação estratégica entre os dois países.
Durante o encontro, Milei destacou o progresso da Base Naval Integrada em construção no extremo sul do país, que ele descreveu como um importante centro logístico devido à sua proximidade com a Antártica e ao seu potencial para apoiar programas científicos internacionais e o desenvolvimento econômico local.
O relacionamento se aprofundou durante 2025 com novas visitas de oficiais militares dos EUA. O sucessor de Richardson no comando do Comando Sul, o almirante Alvin Holsey, viajou à Argentina duas vezes e visitou instalações navais em Ushuaia com representantes diplomáticos dos EUA.
De acordo com informações oficiais, esses encontros se concentraram em observar o papel da Área Naval do Sul na proteção de rotas marítimas estratégicas para o comércio global, em uma região de crescente importância geopolítica.
#SOUTHCOM Commander Adm. Alvin Holsey & @EmbajadaEEUUarg Charge d’Affaires Abigail L. Dressel traveled to southernmost Argentina today & engaged with @Armada_Arg’s Southern Naval Area Command leaders in Ushuaia to get a firsthand look at the critical role they play in… pic.twitter.com/1ZIOalvS5j
— U.S. Southern Command (@Southcom) April 30, 2025
Tanto Richardson quanto Holsey aproveitaram as visitas oficiais à Argentina para expressar preocupação com a expansão da influência chinesa no Atlântico Sul e na região sul do país, um tema recorrente na agenda do Comando Sul.
Nesse contexto, em 2025, o presidente Javier Milei autorizou, por decreto, exercícios militares conjuntos e a entrada de tropas americanas em território argentino, com atividades planejadas em Ushuaia e outras áreas estratégicas.
Novas visitas ao país
Enquanto a controvérsia em torno da chegada do avião militar e seu sobrevoo pelo sul da Argentina continuava, outra delegação dos EUA chegou ao país. Segundo a Embaixada dos EUA, trata-se de uma delegação bipartidária da Comissão de Educação e Trabalho da Câmara dos Representantes, chefiada pelo deputado republicano Tim Walberg.
“A agenda inclui reuniões com autoridades governamentais e outras partes interessadas importantes para conhecer as políticas argentinas de educação e desenvolvimento da força de trabalho.
As discussões também abordarão treinamento em segurança cibernética e estruturas de governança para inteligência artificial”, afirmaram em um segundo comunicado à imprensa.
O governo argentino procurou enquadrar a visita no contexto do fortalecimento dos laços bilaterais.
O Ministro das Relações Exteriores, Pablo Quirno, saudou a chegada da delegação, afirmando que o interesse dos legisladores americanos reflete o plano de governo promovido pela administração de Javier Milei e a relação estratégica entre os dois países.
Ele enfatizou que as visitas de diversas delegações internacionais à Argentina são um desenvolvimento bem-vindo.
No entanto, a oposição continua a alegar falta de transparência nas informações sobre essas visitas e até ameaça levar o assunto à justiça.