O Grupo Fictor entrou com pedido de recuperação judicial com uma dívida estimada em cerca de 4 bilhões de reais. Segundo especialistas, embora o caso não represente um risco sistêmico para o mercado financeiro brasileiro, os impactos serão sentidos por diversas instituições que investiram nos papéis da empresa.
Gilvan Bueno, colunista do CNN Money, explica que um dos pontos centrais da crise envolve o modelo de captação de recursos utilizado pelo grupo. “O grupo Fictor usava uma modalidade chamada SCP, que é a Sociedade de Conta e Participação, que tem um sócio ostensivo e um sócio oculto”, detalha Bueno. Este é um veículo legítimo, mas que, segundo a legislação tradicional, deveria ser utilizado para captações entre pessoas próximas, no modelo “family and friends”.
O problema começou quando o grupo passou a utilizar mais de 12 SCPs para captar recursos de investidores de varejo que não eram qualificados – aqueles com menos de um milhão de reais para investir. “Uma SCP nesse modelo é possível, não tem nenhum problema, mas quando você começa a fazer captação de recursos para investidores que não são investidores qualificados, você começa a atuar numa parte obscura que a CVM tenta entender“, esclarece o especialista.
Impacto no mercado e ausência de garantias
Quanto ao risco sistêmico, Bueno afirma que não há motivo para alarme generalizado, considerando que o Banco Master representa apenas 0,57% do sistema financeiro nacional. “Nós não teremos um risco sistêmico, mas nós teremos um grande impacto em diversas instituições”, avalia.
Um ponto importante destacado pelo especialista é que, diferentemente de outros investimentos, os recursos aplicados via SCPs não contam com o Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Além disso, com o pedido de recuperação judicial, os credores ficam impedidos de acessar seus recursos por pelo menos 180 dias, caso o pedido seja aceito pela justiça.
Para os fundos de FIDC (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios), CRI (Certificados de Recebíveis Imobiliários) e CRA (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) que investiram em papéis da Fictor, a expectativa é de um “haircut” significativo – um desconto substancial no valor da dívida, similar ao que ocorreu no caso das Americanas. O especialista estima que o impacto total possa ficar entre 100 e 200 bilhões de reais.