
Ler Resumo
Uma nevasca de fúria e extensão raras imprimiu na paisagem dos Estados Unidos variados tons de branco nos últimos dias, produzindo recordes sentidos na pele — literalmente. Moradores de alguns estados mais ao norte despertaram com os termômetros em 30 graus negativos, temperatura que congela em minutos a derme. E as pessoas naturalmente tiveram de se adaptar: 700 000 chegaram a ficar sem luz, nunca tantos voos foram cancelados em tão poucas horas (à exceção da pandemia) e Nova York acumulou montanhas de neve que não eram vistas há mais de um século. A recomendação era ficar em casa, mas teve gente que resolveu fazer do Central Park uma vasta pista de esqui, com direito a acrobacias e tudo — um colorido em meio à pálida brancura de ruas completamente vazias. Na capital Washington, o Capitólio fazia lembrar, na segunda-feira 26, uma tela impressionista, já que mal se avistava os contornos do prédio exemplar da arquitetura neoclássica. Com as aulas suspensas, a criançada deslizava na encosta íngreme do edifício do Congresso a bordo de trenós. O presidente Donald Trump, que enquanto enfrentava os desdobramentos da crise deflagrada por sua política migratória aprovou a declaração de emergência em dez estados, não perdeu a oportunidade de sugerir que o frio intenso é mais um sinal de que a comunidade científica erra ao dizer que o planeta está aquecendo. “O que aconteceu com o aquecimento global?”, provocou em sua rede Truth Social, colidindo com a explicação fornecida pelos serviços de meteorologia — o fenômeno foi justamente amplificado pelo choque de uma massa de ar polar com uma espessa camada de umidade que tem tudo a ver com a escalada do calor. Não resta dúvida: outras tempestades virão nesta era de extremos em que vivemos hoje.
Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2026, edição nº 2980