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Cinco anos depois do ataque ao Capitólio, os Estados Unidos seguem lidando com as consequências políticas, institucionais e simbólicas do episódio que, em 6 de janeiro de 2021, interrompeu a certificação da vitória de Joe Biden e expôs uma das maiores crises da democracia americana em décadas. A invasão promovida por apoiadores de Donald Trump deixou mortos, centenas de feridos e um trauma institucional duradouro. À época, o episódio parecia marcar o fim da carreira política do republicano. O desfecho, porém, foi outro: Trump voltou ao poder em 2025 e transformou o 6 de janeiro em um eixo central de sua reabilitação política.
Naquele dia, milhares de manifestantes forçaram a entrada no prédio do Congresso, depredaram instalações e interromperam a sessão conjunta que confirmaria o resultado das eleições presidenciais. Parlamentares, assessores e funcionários se esconderam às pressas, enquanto policiais eram atacados com objetos, sprays químicos e golpes diretos. Cerca de 140 agentes ficaram feridos; quatro morreram por suicídio nos meses seguintes, segundo autoridades americanas.
Após o episódio, Trump sofreu um segundo processo de impeachment — aprovado pela Câmara, inclusive com votos republicanos —, mas foi absolvido no Senado. Investigações criminais avançaram lentamente e, com o tempo, perderam fôlego político. A promessa de que o sistema democrático americano imporia consequências proporcionais ao ataque começou a se desfazer ainda em 2021, mas o ponto de inflexão veio com o retorno de Trump à Casa Branca, em 2025.
Logo no primeiro dia de seu segundo mandato, o republicano concedeu perdão presidencial a cerca de 1.500 pessoas investigadas ou condenadas por envolvimento direto na invasão do Capitólio, encerrando o maior conjunto de processos criminais já conduzido pelo Departamento de Justiça em torno de um único episódio político. Entre os beneficiados estavam réus condenados por agressões a policiais e líderes de grupos extremistas que ajudaram a organizar o ataque.
Além dos perdões, procuradores e agentes federais que atuaram nos casos ligados ao 6 de janeiro foram demitidos, rebaixados ou passaram a ser, eles próprios, alvos de investigações. Aliados de Trump assumiram cargos estratégicos no Departamento de Justiça, incluindo advogados que haviam defendido réus da invasão. O órgão, antes visto como um bastião técnico e independente, passou a ser percebido como vulnerável à pressão política.
Paralelamente, no Congresso, parlamentares republicanos barraram a instalação de uma placa em homenagem aos policiais que defenderam o Capitólio naquele dia, apesar do memorial ter sido aprovado por lei. Ao mesmo tempo, Trump e seus aliados passaram a minimizar a gravidade do ataque, descrevendo os envolvidos como “patriotas” ou vítimas de perseguição política. “Foi um dia de amor”, ele repetiu.
Para investigadores e agentes que atuaram nos casos, trata-se de um esforço deliberado de revisionismo histórico. “O 6 de janeiro foi o crime mais documentado da história americana, mas mesmo assim há uma tentativa sistemática de negar o que todos viram”, afirmou Dan Hodges, policial gravemente ferido durante o ataque.
O sistema judicial consolidou essa mudança. Após a vitória eleitoral de Trump, em 2024, os principais processos contra ele foram abandonados. A Suprema Corte teve papel decisivo ao concluir que o então ex-presidente não poderia ser impedido de concorrer novamente, ao ampliar a imunidade penal para atos oficiais de um chefe de Estado. Efetivamente, os instrumentos de responsabilização criminal do Executivo.
Cinco anos depois, o Capitólio está fisicamente restaurado. O que mudou, porém, foi o esticar dos limites da democracia americana.