Com mares de gente, as filas são longas em Caracas neste sábado, 3, para a compra de insumos e alimentos. Após uma longa madrugada marcada por estrondos de bombardeios americanos, parte da operação que capturou Nicolás Maduro e sua esposa, os venezuelanos temem, mais que tudo, o day after.
O que virá em seguida? Novos ataques, um vácuo de poder, uma guerra civil, uma violenta contração econômica — tudo está na mesa. Como de costume em situações de incerteza (e elas são muitas desde o início do governo Maduro), eles decidiram abastecer suas casas em preparação para o pior.
A reportagem de VEJA encontrou em Caracas uma cidade vazia, desolada. Foram poucos os que ousaram sair de casa depois dos ataques americanos. Dos que saíram, a maioria dirigiu-se a portas de supermercados e farmácias (e uma pequena minoria foi protestar pela libertação de Maduro).

Muitos dos que peregrinaram por insumos admitem que se trata de uma compra por precaução: de fato, possuem alimentos em casa, diferente de outras épocas quando a escassez era a principal marca da Venezuela. Mas, diante da incerteza política, buscam armazenar os poucos produtos que há.
A senhora Rosangela Marín contou à reportagem de VEJA que percorreu boa parte do oeste de Caracas e que a maioria dos comércios estava fechada, desde padarias até grandes estabelecimentos.
“Venho desde o bairro Catia e o que tenho visto são filas longas para comprar. Quero ter por precaução”, disse ela.

Ao ser questionada sobre o que ocorreu durante a madrugada e que levou à captura de Maduro, ela descreveu sentir que isso faz parte do que significa viver na Venezuela: “É preciso aguentar. Vivemos neste país, para onde mais vamos ir?”
Na mesma fila estava Diana Gago, uma mulher de cerca de 30 anos, que contou a VEJA que já esperava havia mais de uma hora e ainda não tinha conseguido entrar no supermercado.
“Procuro farinha, ovos, água e atum”, afirmou a venezuelana, que também reconhece ter alguma comida em casa, mas, por precaução, prefere ter maior disponibilidade de insumos.
Em farmácias e postos de gasolina, também são observadas longas filas. Nesses estabelecimentos, quando estão abertos, não é mais tão difícil encontrar produtos. Mas a inflação, que fez o bolívar virar pó (deve chegar a 270% neste ano), e o avanço da pobreza, que atinge hoje 73% da população, reduziram o poder de compra dos venezuelanos que, se nutrem o hábito de abastecimento, logo se veem obrigados a consumir o que deveria servir como garantia de longo prazo.