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O imenso barulho provocado em torno da briga da Netflix e da Paramount pela compra da Warner Bros. Discovery agitou — e ainda agita — o mundo do entretenimento como há muito não se via ou ouvia. A Netflix pôs na mesa 82,7 bilhões de dólares. A Paramount respondeu com uma oferta hostil de 108,4 bilhões de dólares. A guerra esconde um outro fascinante movimento, com semelhante poder de revolucionar as artes: na surdina, o braço musical da Warner — e que não faz parte do pacotão de negociações — encerrou litígio judicial com a startup de inteligência artificial (IA) Suno, que usava nomes do rol da gravadora para inventar conteúdos, e tratou de firmar acordo de modo que os robôs possam ser “treinados” pelas vozes e harmonias de artistas cadastrados na gigante cultural. Os usuários da Suno poderão criar remixes, covers e até canções inéditas bebendo de famosos — desde que, é claro, eles autorizem.

É passo revolucionário, mudança de estratégia premida pela invasão da IA em todos os setores, e não poderia ser diferente na indústria fonográfica. Outras grifes, como Universal e Sony, trilham caminhos semelhantes, embora ainda persistam entraves nos tribunais de Justiça. Direto ao ponto: pela primeira vez um sistema de IA terá acesso legal e em larga escala a grandes repertórios protegidos por direitos autorais. É lista que inclui nomes do porte de Lady Gaga, Coldplay, Ed Sheeran, Dua Lipa, The Weeknd e Sabrina Carpenter. O passo é histórico porque caminha em trilha de nítido sinal: as gravadoras já não podem lutar contra a tecnologia, como se não existisse, e decidiram, então, alinhavar um ecossistema no qual criadores possam ser recompensados, mantendo controle sobre suas obras. O caminho parece ser o correto para colocar ordem no negócio, mas é preciso ver ainda, na prática, como isso vai funcionar — e, sobretudo, se os artistas, donos intelectuais das obras, vão receber remuneração justa.
No início do ano, 400 compositores e cantores assinaram, no Reino Unido, uma carta exigindo transparência. Sir Paul McCartney organizou um protesto singular: reuniu mais de 1 000 músicos para lançar um álbum com doze faixas completamente silenciosas, contendo apenas ruídos ambientes de estúdios e palcos vazios. O título da peça, Is This What We Want?, revela o que desejam: regras, preferencialmente rígidas. Eles têm um ponto: que tipo de criatividade brotará? Se for ruim como o da banda Velvet Sundown, totalmente artificial, estamos perdidos. Os membros da trupe não existem e suas composições “roubam” um pouco daqui, um pouco de acolá, e nada de alma. Com um detalhe: 3,8 milhões de pessoas já clicaram na insossa Dust on the Wind, misto de sabe-se lá o quê, o hit da Velvet. “Muitos modelos de IA estão sendo desenvolvidos e operados de forma que violam os direitos autorais pela ausência de uma legislação específica e atualizada”, diz Talita Cordeiro, diretora-geral da Associação Brasileira da Música Independente (ABMI).

É travessia ainda repleta de incertezas. No Brasil, o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) bloqueou aproximadamente 14 000 cadastros por uso não autorizado de IA. Desde julho, autores e artistas precisam declarar se utilizaram os robôs ao registrar os trabalhos montados total ou parcialmente por meio de algoritmos. Tanta fervura remete a um outro momento decisivo na lida da civilização com o ineditismo, porque a necessidade é a mãe da invenção. Nos anos 2000, as gravadoras lutavam ferozmente contra o Napster, software de compartilhamento de pirataria digital, processando até consumidores individuais. E então Steve Jobs, o gênio da Apple, sujeito que via tudo antes, propôs o iTunes, com uma saída: um modelo de distribuição digital que as gravadoras pudessem controlar e monetizar.
Em ambos os casos, o de agora e o do início do século, deu-se uma evidência: é melhor negociar do que tentar impedir o inevitável. Com uma notável diferença: lá atrás, as companhias demoraram demais para reagir, e os bucaneiros fizeram a festa. Desta vez, poderosos como a Warner agem mais velozmente, antes que práticas irregulares se consolidem como norma incorrigível. Os tempos estão mudando.
Publicado em VEJA de 19 de dezembro de 2025, edição nº 2975