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Oideal de beleza feminina oscila ao longo da história, ora enaltecendo as mais curvilíneas, vistas como esbanjadoras de saúde e fertilidade, ora valorizando silhuetas magras como a de Twiggy, a esguia britânica de pernas finíssimas e visual andrógino que, nos anos 1960, inaugurou o vocábulo supermodelo, hoje tão disseminado no mundo fashion. Desde então, este padrão não saiu de cena, o que para muitas mulheres acaba por impor elevadas doses de pressão, a qual, mal administrada, resvala para a perda do bom senso, podendo levar ao adoecimento.

O ápice da onda que alçou o corpo equilibrado em quadris de ossos pronunciados à condição de belo tomou a banda ocidental do planeta nos anos 1990 a 2000, glorificando a gordura zero a qualquer preço, mesmo às custas de um sufoco à mesa no dia a dia. Para uma fatia silenciosa, a obsessão conduziu a distúrbios alimentares até então pouco conhecidos, como a anorexia e a bulimia. Pelo alto risco que embutem, sua incidência fez acender um sinal de alerta, colhendo reações muito bem-vindas à sociedade — uma delas o movimento body positive, que uma década atrás passou a agitar bandeira em prol da filosofia de que cada um deve ser do seu jeito, incluindo aí o direito elementar de se apresentar com as imperfeições inerentes à espécie humana.

NUNCA É O BASTANTE - Em vídeos sobre perda de peso que publica quase diariamente em seu perfil, Carol Castro, 25 anos, repete frases de efeito como “mate a gorda que existe em você”. A ideia é incentivar os milhares de seguidoras a cumprir uma rotina rígida de exercícios e dieta. “As pessoas me tratam melhor desde que eu emagreci”, diz a influencer, que recentemente subtraiu 35 quilos na balança e está hoje com 63.
NUNCA É O BASTANTE – Em vídeos sobre perda de peso que publica quase diariamente em seu perfil, Carol Castro, 25 anos, repete frases de efeito como “mate a gorda que existe em você”. A ideia é incentivar os milhares de seguidoras a cumprir uma rotina rígida de exercícios e dieta. “As pessoas me tratam melhor desde que eu emagreci”, diz a influencer, que recentemente subtraiu 35 quilos na balança e está hoje com 63. (//Arquivo pessoal)

Mas nesta era que encara como nenhuma outra a diversidade como um valor a ser perseguido, os especialistas têm observado um perigoso retrocesso na caminhada rumo à aceitação do próprio corpo. E o palco onde o fenômeno se desenrola são as redes sociais, nas quais ganha potência e se espalha de modo sorrateiro na forma de perfis que, à primeira vista, parecem movidos pela salutar intenção de consolidar bons hábitos. Pois não são. Uma varredura na internet feita por VEJA rastreou 600 000 hashtags e milhões de visualizações no Brasil de trends que fazem apologia à “barriga negativa” conquistada à base de restrições extremas. Criadas por influencers que ali ganham o pão de cada dia (e ele não é tão minguado quanto o que recomendam às seguidoras) com publicidade, essas páginas fornecem um passo a passo, que de científico não tem nada, para alcançar uma numeração de roupa à la Twiggy. E são sempre embaladas por slogans que colam à mente, como “a felicidade é magra” ou simplesmente “magras, magras, magras”, que tristemente reverberam em uma escala incomparável à dos tempos pré-redes.

O desserviço oferecido por esses perfis em ascensão no TikTok e no Instagram é semear nas mulheres, que compõem quase 100% da amostra, o medo de ganhar peso, tudo vendido sob a embalagem de um estilo de vida bem equilibrado. “É justamente o temor intenso de engordar o que mais caracteriza a anorexia nervosa. Em nome dele as pessoas adotam estratégias severas para perder peso”, explica Rogéria Taragano, supervisora do tratamento de anorexia do programa de transtornos alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP. A primeira fase da doença é quase invisível, uma vez que a aparência de desnutrida só se revela em estágio mais avançado. A angústia dessa ala feminina ainda tão agarrada a um ideal único de beleza é mirar-se no espelho, projetar lá uma imagem distorcida e nunca gostar do que vê.

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Hana Kalil Credito: Arquivo Pessoal
EM BUSCA DO EQUILÍBRIO – À frente de uma conta com mais de 2 milhões de seguidores nas redes, Hana Kalil, 29 anos, que já foi defensora de exercícios e dietas, repensou e mudou após ela própria dar sinais de comportamentos doentios. “Descobri que é preciso cultivar a saúde mental e combater pensamentos obsessivos sobre estética”, afirma ela. (//Arquivo pessoal)

De modo amplo, as redes muito contribuem para isso, ao exibir sob holofotes virtuais corpos irretocáveis, não raro produto de edição. Um novo estudo da universidade israelense de Ashkelon enfatiza que o conjunto de perfis dedicados ao tema torna as adolescentes significativamente mais vulneráveis a esses transtornos. “As plataformas de mídia social são agentes poderosos na formação de padrões de beleza, valores culturais e normas alimentares”, registraram em artigo os médicos Keren Dopelt e Nourit Houminer-Klepar, autores do estudo e especialistas em saúde pública. Eles e outros andam atentos à movimentação na internet, onde a contagem de calorias é estimulada, assim como a culpa de quem se desvia do menu sugerido, o que às vezes evolui para jejuns esticados, excesso de malhação e, em patamar mais grave, para vômito induzido ou uso de laxantes, conforme informam as frequentadoras dessas páginas.

Uma turma que aderiu ao rol das influencers o fez por não aprovar as próprias curvas e buscar um canal para dividir com outros sua jornada à caça de uma imagem que considera digna de postagens e repostagens. Uma parte refletiu, tal como aconteceu com Hana Khalil, 29 anos, que hoje reconhece também ter sido refém dos modismos das redes. “Há uns dois anos, a distorção de imagem veio muito forte e eu fiquei obcecada por academia e espelho”, relata ela, que já havia enfrentado transtorno alimentar na adolescência. Diagnosticada com anorexia, perdeu 18 quilos, cravando 52 na balança com uma altura de 1,74 metro. “Vivia com pressão baixa, sem saúde, mas me sentia realizada por estar mais magra”, lembra Hana, que hoje é crítica da onda de blogueiras que faturam em cima de conteúdos que supervalorizam a magreza e abandonou essa toada para agora, após um longo período sombrio, falar do que descobriu, à base de intensiva terapia, ser verdadeira qualidade de vida para ela.

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LIBERDADE - Movimento body positive: a filosofia de que cada uma deve ser do seu jeito
LIBERDADE – Movimento body positive: a filosofia de que cada uma deve ser do seu jeito (//Shutterstock)

Celebridades que navegaram por maré igualmente revolta acabaram por divulgar o ideal da magreza excessiva sem entender ainda a nociva extensão que poderiam alcançar. Na década de 1990, a estrela britânica das passarelas Kate Moss, ícone do estilo heroin chic, hoje com 51 anos, disse: “Nada tem gosto tão bom quanto a sensação de estar magra”. O mundo girou, e ela, que sempre negou sofrer de anorexia, veio a público afirmar que lamentava a frase que à época virou equivocado lema de uma parcela da juventude.

É difícil traçar um diagnóstico da doença — o exame clínico se fundamenta em uma repetição de comportamentos e ideias. “O mais complicado é que a pessoa não consegue se enxergar como realmente está”, ressalta a psicóloga Sara Kislanov, da PUC-Rio. As redes se encarregam hoje, muitas vezes, de dar o empurrão para o abismo. Depois de emagrecer 35 quilos e mudar o biotipo, chegando aos atuais 63, distribuídos em 1,77 metro, a influencer Carol Castro, 25 anos, compartilha com seus 500 000 seguidores sua fórmula para seguir encolhendo na balança. Segundo ela, isso a fez receber melhor tratamento em vários departamentos da vida. “Toda vez que você pensar em furar a dieta, eu quero que escute minha voz gritando na sua cabeça e mandando a gorda embora”, afirma ao fiel público, acreditando estar ali prestando um serviço, só que não está.

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ÍCONE DE UM IDEAL - Kate Moss: muitas meninas queriam ser como ela
ÍCONE DE UM IDEAL - Kate Moss: muitas meninas queriam ser como ela (Gerard Julien/AFP)

Historicamente, a aceitação social feminina sempre teve a aparência como um pilar — o que, para o bem geral, começa a mudar. “As meninas crescem aprendendo que precisam ser bonitas e se encaixar no padrão”, ressalta a socióloga Marcela Castro, da Universidade Federal do Piauí. Exageros brotam sob esta lógica que a muitas causa sofrimento. O uso de medicamentos indevidos, com riscos de indesejados efeitos colaterais, é um dos desdobramentos da doentia obsessão com a imagem. Desenvolvidos para tratar diabetes e obesidade, inibidores do apetite como Ozempic e Mounjaro vêm sendo desviados da função original e obtidos sem prescrição no mercado ilegal (leia a reportagem na pág. 44) por jovens que querem perder apenas um par de quilos, mas procuram um atalho à dieta, algo contraindicado. A atriz e influenciadora Giovanna Chaves, 24 anos, recentemente viralizou ao contar à sua plateia de 11 milhões de seguidores que tem usado canetas emagrecedoras para subtrair 3,5 quilos e ficar com exatos 49,5. “Tudo que indico aqui é o que faço com muito cuidado e amparo médico. Prezo muito por você se cuidar da maneira certa”, garantiu, bem-­intencionada que seja, porém sem amparo científico.

Nas profundezas das redes, proliferam comunidades e fóruns anônimos onde meninas que se assumem anoréxicas compartilham táticas altamente arriscadas para perda de peso em um sinistro clima de competição, com metas tais como baixar o peso para, digamos, 45 quilos. Quem não consegue passa a ser hostilizada. Há muitas que, após tanta privação, acabam registrando episódios de compulsão alimentar. “Elas passam até a não socializar para não ter que comer”, conta Manuela Dolinsky, presidente do Conselho Federal de Nutrição. A pressão frequentemente conduz ao isolamento. A publicitária F.M., 23 anos, que preferiu não se identificar, nem se deu conta de quanto o bombardeio de conteúdos produzidos por essas blogueiras mexia com a cabeça dela. “Comia apenas duas claras de ovo com cenoura no almoço e no jantar e fazia vinte horas de jejum”, lembra ela, que precisou de ajuda de nutricionista e psicólogo. Livrou-se assim de um tremendo peso. Contra este, sim, vale a pena lutar.

Publicado em VEJA de 12 de dezembro de 2025, edição nº 2974



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