
O presidente americano Donald Trump está exercendo uma grande pressão para obter à renúncia ou deposição do ditador venezuelano Nicolás Maduro. Uma pressão muito maior, aliás, do que esteve disposto a colocar em prática durante o seu primeiro mandato presidencial, entre 2017 e 2021. Naquele período, segundo o relato do seu então conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, e de outras fontes, Trump oscilava entre o compromisso total em forçar a mudança de regime na Venezuela e o completo desinteresse em contratar uma dor de cabeça com uma intervenção militar na América do Sul.
As coisas parecem diferentes agora. Sob as ordens de Trump, navios de guerra americanos estão há meses patrulhando as águas próximas ao litoral venezuelano, incluindo um porta-aviões, cruzadores, contratorpedeiros e submarinos, além de aviões de combate e de reconhecimento. Cerca de uma dezena de ataques contra embarcações pequenas, alegadamente transportando drogas, foram destruídas pelas forças americanas. Trump também propagandeou que teria autorizado a CIA, a agência de inteligência americana, a fazer operações secretas dentro da Venezuela.
Esta semana, o aparato militar americano apreendeu um navio que havia partido de um porto venezuelano carregado de petróleo, desrespeitando as sanções contra as exportações do produto pelo país. A Venezuela se utiliza de uma frota de navios-fantasmas, petroleiros que navegam com seus sistemas de rastreamento desligados, para driblar as sanções e conseguir vender o petróleo para outros países.
As sanções americanas contra a Venezuela começaram a ser impostas em 2015, ainda no governo do democrata Barack Obama, em resposta a violações de direitos humanos pelo chavismo. O bloqueio foi aumentando ao longo dos anos, restringindo bastante a principal fonte de divisas para o regime.
Os Estados Unidos costumavam ser os maiores importadores de petróleo venezuelano, chegando a comprar quase 650 milhões de barris de cru e derivados em 1997, número que caiu para 84 milhões em 2024. A importação seria próximo de zero se a petrolífera americana Chevron não tivesse recebido uma autorização para voltar a operar na Venezuela em 2022. Este ano, Trump renovou a exceção para a Chevron, mas há o risco de que ele volte atrás na decisão a qualquer momento.
Publicamente, o governo americano afirma que sua briga com Maduro se deve à relação do regime com o tráfico internacional de drogas e com o envio sistemático de imigrantes ilegais para os Estados Unidos. Menos escancarada é a motivação geopolítica para se livrar de Maduro: sob o chavismo, a Venezuela permanece sob influência, ou melhor, dependência, da China e da Rússia. E a disputa por hegemonia com a China é o grande desafio externo do governo Trump.
Do ponto de vista econômico, o petróleo é a razão óbvia. A Venezuela tem as maiores reservas comprovadas do mundo, mas sua produção caiu muito desde a chegada de Hugo Chávez ao poder, em 1999. Isso aconteceu por dois motivos. Em um primeiro momento, pela incompetência da gestão chavista do setor, responsável por derrubar a produção de 3,5 para 2,5 milhões de barris por dia. Posteriormente, pelas sanções americanas, que fizeram minguar os compradores e forçaram a Venezuela a reduzir para menos de 1 milhão de barris por dia a exploração em seus poços. O retorno da operação da Cevron pode elevar esse número para 1,2 milhão de barris por dia.
Trump já disse nos bastidores, segundo relatos de empresários que estiveram com ele, que o seu interesse em tirar Maduro de circulação se deve basicamente ao petróleo. Enquanto o mundo discute a transição energética, o presidente americano é o sujeito que fez campanha eleitoral com o slogan “drill, baby, drill” (“perfure, baby, perfure”, um incentivo à exploração de petróleo). Os Estados Unidos são autossuficientes em combustíveis fósseis graças aos avanços na tecnologia do faturamento hidráulico, mas a retomada do fluxo do cru pesado característico da Venezuela seria estratégico.
Primeiro, porque serviria para moderar os preços dos combustíveis no mercado americano, uma obsessão de Trump, que prefere quando o valor do barril do óleo cru pelo WTI (índice de referência do Texas) está entre 40 e 50 dólares. Ou seja, barato o suficiente para favorecer a economia, mas alto o bastante para que a produção nos Estados Unidos seja compensatória para as empresas petrolíferas. Nesta sexta-feira, 12, o barril pelo WTI estava em cerca de 57 dólares — acima, portanto, do considerado ideal por Trump.
O segundo incentivo para a normalização do fluxo de petróleo venezuelano é o fato de que muitas refinarias nos Estados Unidos, principalmente as que se situam ao longo da costa do Golfo do México (aquele que Trump rebatizou de Golfo da América), foram construídas especificamente para operar com o petróleo venezuelano, mais “pesado” e rentável. Essas refinarias atualmente estão, em grande parte, ociosas.
O afastamento de Maduro e uma possível reabertura do setor petrolífero venezuelano permitiria a retomada dos investimentos para devolver a produção no país aos patamares recordes do passado. Não seria preciso muito para dobrar a extração de petróleo no curto e médio prazo. Para chegar a 3 milhões de barris ou mais por dia, porém, seriam necessários aportes da ordem de dezenas de bilhões de dólares para renovar a infraestrutura e abrir novos poços.
Para um presidente que sem empolga em “perfurar, perfurar”, trata-se de um cenário tentador.