
Consagrado no setor cinematográfico por obras como O Que é Isso, Companheiro?, Dona Flor e Seus Dois Maridos e Gabriela, Cravo e Canela, o diretor Bruno Barreto é o nome por trás do novo lançamento nacional Traição Entre Amigas, que chega aos cinemas nesta quinta-feira 11, e protagonizado por Larissa Manoela e Giovanna Rispoli. A construção da trama carrega uma característica bastante apreciada pelo cineasta: a tragicomédia. No roteiro escrito por Thalita Rebouças e Marcelo Saback — baseado em um livro de mesmo nome de Thalita –, duas melhores amigas lidam com os dilemas e as delícias da vida adulta, entrando em questões íntimas e difíceis do universo feminino. Em entrevista a VEJA, Barreto conta sobre o processo de construção do filme e relembra indicação ao Oscar, em 1988.
O que lhe atraiu no enredo de Traição entre Amigas e que não havia explorado em seus outros filmes? Eu geralmente escolho as histórias que quero contar a partir do que sinto pelos personagens, mais do que a trama em si, é sobre quem são essas pessoas de quem eu vou falar. Elas têm que me instigar e essas duas personagens me instigaram muito pelas suas qualidades e defeitos também, porque são quase que diametralmente opostas. E eu me vi um pouco nas duas, a impulsividade, o preconceito. Então, em todos os filmes é sempre isso, é a razão pela qual eu vou e decido contar uma história. Mas, nessa, foi mais especificamente esse rito de passagem, é o momento que elas têm de decidir, se definir e redefinir. Precisam fazer escolhas e, mesmo com os erros, passam por um momento de crescimento e transformação. Foi isso que realmente me instigou e me fez querer contar essa história.
O que viu na Larissa e na Giovanna para colocá-las nesses papéis? A Larissa ainda não tinha feito um papel assim. Eu fiz isso, por exemplo, com a Gwyneth Paltrow em Voando Alto. A Gwyneth estava sempre identificada com personagens meio Shakespeare Apaixonado, meio aristocráticos. Muita gente nos Estados Unidos achava que ela era inglesa até que eu a escalei para o papel de uma “white trash”, uma menina do interior, que queria ser aeromoça. E isso é sempre interessante, não só para o ator, como para o diretor. Então, ter a Larissa fazendo uma personagem que é livre, pegadora, maximalista, eu senti que poderia “dar samba”. A Giovanna já é o oposto, ela é uma personagem introvertida, em que o motor é a raiva, porque a raiva pode ser positiva, dependendo de como você a conduz. A inveja pode ser positiva também. Então, é sobre esse lado obscuro do personagem da Giovanna, que ela também tem. Eu procuro muito ver o que os atores têm em comum com os personagens, porque eu acredito que é uma espécie de encontro. E sempre que esse encontro acontece, o resultado é melhor.
Como enxerga essa fase atual do cinema brasileiro, principalmente em comparação com a época em que levou O que É Isso, Companheiro? para o Oscar? Acredito que a gente evoluiu muito, os roteiros melhoraram demais e nós temos atores também excepcionais, então esse reconhecimento é mais do que merecido. O filme do Walter Salles [Ainda Estou Aqui] é um dos filmes mais bonitos que eu vi na minha vida, me emocionei muito com aquele filme, e agora tem o do Kleber [O Agente Secreto], que é muito forte e bem feito. É uma grande homenagem ao cinema, antes de tudo. Então, eu vejo como um momento de ascensão e de evolução do cinema brasileiro. Na minha época, nós também estávamos vivendo um momento bom. Um ano antes, quem tinha ido para o Oscar era O Quatrilho e um ano depois veio o Central do Brasil, que foi quando o Brasil teve filmes que chegaram aos cinco finalistas, por três anos seguidos.
Como foi essa virada de deixar um pouco de lado os dramas mais densos para se aventurar por comédias mais leves? Olha, eu não tenho uma estratégia de carreira, eu vou fazendo as histórias que tenho vontade de contar e que são possíveis de ser contadas também, tenho uma postura muito definida. Eu vivo do cinema, que é uma arte pura. Para mim, não é uma questão de pagar as contas fazendo publicidade ou televisão, porque eu acho que isso cria uma relação perversa com o cinema. Eu vivo disso, é a minha profissão e o meu ofício e eu dou 300% de mim em todo filme que eu faço, sejam filmes que eu crio, como projetos ou filmes que me convidam para fazer. Eu sempre gostei de comédia, eu adoro comédia e cresci muito nas comédias do neorrealismo italiano, que é uma fonte onde eu bebo sempre.
Houve algum acontecimento marcante nos bastidores de Traição Entre Amigas? A gente filmou no inverno em Curitiba e lá é muito frio. Eu gostei muito disso, porque o que aconteceu é que, esteticamente, a parte do filme que se passa no Brasil ficou monocromática e fria e a parte que se passa em Nova York, que foi gravada no verão, ficou saturada e alegre. Então, houve uma inversão de clichês e até de expectativas, porque o que seria esperado era que os trópicos fossem alegres e saturados e que o clima setentrional no hemisfério Norte fosse mais frio. E isso acabou tendo tudo a ver com os personagens também, a própria mãe da Penélope, a Calu, é super colorida, alegre e esfuziante. A casa da Luísa, por outro lado, é meio como a casa do Parasita, bastante fria. Então tem esse contraste e essa inversão estética.
Como foi equilibrar o tom do filme, que traz tanto um ar cômico quanto emocional? Em geral, eu faço isso em muitos dos meus filmes, porque eu adoro o que agora se chama de dramédia, mas eu chamo de tragicomédia, porque acho que nada, nenhum momento da vida é totalmente trágico ou totalmente engraçado. Eu sempre acho que tem humor na tragédia e tragédia no humor. Então, eu procuro isso, até quando estou fazendo filmes muito pesados, como O que É Isso, Companheiro?, que foi indicado ao Oscar, ali tinham momentos de humor. Modéstia a parte, esse desafio é uma coisa que eu gosto. Faz com que a história fique mais verossímil.
Qual mensagem quer passar com o filme? Não tenha medo de errar, a gente só aprende com os erros e não tem nada melhor do que crescer e aprender, para poder ter toda a liberdade.
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