
Ler Resumo
Em um movimento cada vez maior, as principais facções criminosas brasileiras tentam financiar e ocupar espaço na política para ampliar influência e domínio em uma espécie de “estado paralelo” que fortalece lavagem de dinheiro oriunda de operações ilícitas como tráfico de drogas. A situação financeira de organizações como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), com lucros bilionários, favorecem a compra de votos para direcionar votos a integrantes infiltrados nas eleições ou aos associados.
Em um primeiro momento, Polícia Federal (PF) e Ministério Público Federal (MPF) e instituições estaduais atuam para evitar que candidatos ligados ao crime consigam apresentar candidatura junto à Justiça Eleitoral nas próximas semanas. Operações já estão em andamento e suspeitos monitorados. Até o dia da votação, em outubro, uma das metas das autoridades é permitir também que eleitores votem de maneira livre. Isso porque, como VEJA mostrou, quase 30 milhões de brasileiros vivem sob o domínio territorial das organizações criminosas. Ao ocuparem territórios — geralmente na ausência do Estado — facções conseguem impor suas vontades aos moradores das áreas que se tornam reféns, inclusive, em tempos de eleição.

Mas as preocupações de autoridades brasileiras chegam a outros patamares também. Um deles, é o problema criado por criminosos ou aliados do crime que chegam ao poder. Uma das metas dessas associações é mudar legislações que possam beneficiá-las e trancar ou evitar investigações. Na parte administrativa do Poder Público, uma das metas das organizações é saber movimentos licitatórios para lavagem de dinheiro por meio de empresas de fachada criadas meses antes em uma preparativa para abocanhar contratos, movimento que ocorre em maior proporção em municípios.

As informações sobre modus operandi do crime organizado na esfera política e administrativa foram amplamente divulgadas pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Senado Federal. “Os trabalhos da Comissão evidenciaram que o crime organizado contemporâneo não busca necessariamente ocupar diretamente cargos públicos, mas sim garantir acesso ao poder e proteção dentro da esfera estatal. Essa captura se dá por múltiplas vias: o financiamento de campanhas eleitorais, a cooptação de agentes de segurança pública, a corrupção de servidores do sistema prisional, a influência sobre magistrados e membros do Ministério Público, e a infiltração em órgãos reguladores e de fiscalização”, diz trecho do relatório final apresentado pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE). O documento conta com mais de 220 páginas.
Mestre em direito constitucional pela Universidade de Lisboa, o advogado Bruno Caires também defende que partidos políticos auxiliem a Justiça Eleitoral para evitar infiltrações do crime nas legendas. “Uma possibilidade é criar uma auditoria interna, ter um compliance, para filtrar quem está se candidatando ou tem pretensão de se candidatar”, afirmou.