Sempre que ouvimos falar de um surto de Ebola, é assustador, e o atual na República Democrática do Congo é particularmente preocupante. Houve centenas de casos e dezenas de mortes no país, além da disseminação para Uganda, na África, tornando-o um dos maiores surtos que já vimos.

Novos modelos dos CDCs (Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos) sugerem que este surto pode até mesmo superar outros surtos históricos se intervenções robustas de saúde pública não forem implementadas rapidamente.

Neste momento, o risco regional é alto, mas a OMS (Organização Mundial da Saúde) mantém a posição de que o risco para a comunidade global em geral é baixo. Por muitos dos motivos descritos abaixo, a probabilidade de isso se tornar uma pandemia é praticamente nula.

Em um evento da série CNN All Access, esta semana, conversei com a correspondente-chefe internacional da CNN, Clarissa Ward, sobre a situação no terreno, e com o Dr. Jay Bhattacharya, diretor dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA e diretor interino do CDC, sobre como os EUA estão respondendo.

Veja as cinco coisas que você precisa saber sobre esse surto

1. Perdemos semanas, talvez meses, na luta contra isso

A OMS declarou oficialmente este surto de Ebola uma emergência de saúde pública de interesse internacional em 17 de maio, cerca de duas semanas depois de a agência ter tomado conhecimento de um surto de alta mortalidade de doença desconhecida na província de Ituri, na República Democrática do Congo.

Mas, de modo geral, as autoridades de saúde agora concordam que a doença provavelmente já estava se espalhando muito antes de sabermos disso — talvez desde fevereiro.

Segundo Clarissa, o prefeito de Mongbwalu, uma remota cidade mineradora de ouro na província de Ituri, no nordeste da República Democrática do Congo, acredita que o primeiro caso ocorreu em 22 de fevereiro. Nessa época, um corpo foi retirado do necrotério local e o caixão foi queimado. Em duas semanas, dezenas de pessoas na cidade estavam mortas.

Inicialmente, as autoridades locais suspeitaram que a tuberculose pudesse ser a causa das mortes. Também realizaram testes para o vírus Ebola, mas os primeiros resultados foram negativos porque buscavam a cepa Zaire, mais comum, e não a cepa Bundibugyo, responsável pelo surto atual.

Autoridades da OMS estão investigando para obter mais informações sobre a cronologia da disseminação, que, segundo elas, provavelmente começou antes do que se pensava. Como afirmou o diretor regional da OMS para a África, “em um surto, tempo perdido significa transmissão ganha”.

Novos modelos do CDC apresentam diversos cenários em que o surto atual poderia se tornar maior do que o surto de 2014 a 2016 na África Ocidental em questão de meses. Aquele surto resultou em mais de 28 mil casos e mais de 11 mil mortes.

Sabemos que houve pelo menos 60 mortes no surto atual. Mas se a investigação em curso mostrar que houve mais – 100 ou mesmo 200 mortes até o final de maio — a modelagem prevê uma probabilidade muito maior de que isso se transforme em um surto massivo. A melhor chance de minimizar esse risco é identificar e isolar os casos o mais rápido possível.

2. Qualquer surto de Ebola é complicado, mas este é extraordinário

O Ebola não é muito contagioso — ao contrário do que você pode ter ouvido, ele não se espalha facilmente como o sarampo ou mesmo a Covid-19 — mas é uma doença excepcionalmente infecciosa.

Isso significa que uma pessoa infectada precisa estar muito doente, com uma grande quantidade de vírus acumulada no corpo, antes de conseguir transmiti-lo para outra pessoa. Mas, uma vez que a pessoa atinge esse estágio, cerca de uma semana após a infecção, basta uma pequena quantidade de fluido corporal para potencialmente causar infecção em outra pessoa.

Por esse motivo, profissionais de saúde e familiares ou outros cuidadores são os mais propensos a contrair a doença. No surto atual, a maioria dos pacientes são mulheres entre 20 e 39 anos.

Os chamados EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) como máscaras e luvas, podem ajudar a prevenir a propagação, mas o surto na República Democrática do Congo está ocorrendo em um local remoto com recursos limitados.

As condições estão melhorando à medida que os parceiros internacionais enviam mais recursos para a região, mas, durante semanas, as enfermarias dos hospitais estiveram sobrecarregadas com pacientes e com equipamentos insuficientes para cuidar deles — ou dos profissionais de saúde — adequadamente.

Vi, em primeira mão, o quão difícil é lidar com a doença quando estive na Guiné durante um surto de Ebola em 2014. É preciso ter extremo cuidado, até mesmo pequenas fissuras na pele ao redor das unhas podem tornar a pessoa suscetível à exposição.

Uma das maneiras mais importantes de controlar um surto é o rastreamento de contatos, que pode ajudar a quebrar as cadeias de transmissão, identificando pessoas que possam ter sido expostas. Mas essa estratégia fundamental de saúde pública é extremamente difícil na República Democrática do Congo.

A OMS afirmou nesta semana que pretende contatar mais de 90% dos contatos para se antecipar ao surto. Até o momento, conseguiu atingir menos da metade.

O conflito violento na região causa muita insegurança e deslocamento na comunidade. Os moradores locais também nutrem uma profunda desconfiança em relação aos hospitais e aos profissionais de saúde.

Assim, alguns não acreditam que o Ebola seja real e veem os hospitais como lugares onde as pessoas vão quando estão doentes, mas de onde nunca retornam. Isso pode dificultar a coleta de informações ou a implementação de precauções, mesmo quando se consegue entrar em contato com alguém infectado.

3. Os EUA já têm um plano definido há muito tempo sobre como lidar com casos de Ebola

Um americano foi infectado com o vírus Ebola no surto atual: o Dr. Peter Stafford, um médico missionário que trabalhava na República Democrática do Congo.

Ele está sendo tratado na Alemanha, enquanto os EUA trabalham para montar uma unidade no Quênia para americanos que possam ter sido expostos ao vírus. Mas o Dr. Bhattacharya me disse que não descarta a possibilidade de alguns pacientes retornarem aos EUA para receber tratamento, dependendo de suas circunstâncias específicas.

Os Estados Unidos possuem uma rede de centros de tratamento designados pelo governo federal, especificamente projetados para lidar com patógenos emergentes, como o Ebola. Alguns quartos de isolamento no centro da Universidade de Nebraska estão atualmente ocupados por pessoas que estão sendo monitoradas para o hantavírus.

O Hospital da Universidade Emory, em Atlanta, tratou com sucesso vários pacientes com Ebola durante o surto de 2014. Não existem tratamentos específicos para a cepa do Ebola responsável pelo surto atual, mas o atendimento médico precoce pode fazer uma grande diferença.

Os primeiros sinais da doença podem incluir sintomas “secos”, como febre, dores no corpo e fadiga. À medida que a doença progride, podem surgir sintomas “úmidos”, incluindo diarreia, vômitos e sangramento inexplicável.

A simples administração de fluidos e a reposição de eletrólitos podem salvar vidas. Os pacientes também podem receber medicamentos para controlar a pressão arterial e minimizar outros sintomas.

Existem também algumas terapias experimentais promissoras. Entre elas, destacam-se dois produtos de anticorpos monoclonais, que utilizam proteínas protetoras geradas como parte da resposta imunológica do organismo para atacar as células doentes.

Alguns desses anticorpos monoclonais experimentais foram enviados para o exterior para que o médico americano pudesse ser tratado com eles enquanto se dirigia para receber cuidados adicionais.

4. Levará meses até que comecemos a ter respostas sobre tratamentos e vacinas

Durante o surto de Ebola na África Ocidental, entre 2014 e 2016, uma vacina foi desenvolvida, testada e, por fim, aprovada pelos Estados Unidos e outros países da Europa e da África para uso oficial.

Mas ela é direcionada à cepa Zaire do Ebola, mais comum, e há poucas informações sobre sua eficácia na proteção contra a cepa Bundibugyo, presente no surto atual — além de incógnitas sobre sua segurança.

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Existem três vacinas em desenvolvimento que visam especificamente a cepa Bundibugyo: uma vacina desenvolvida pela Moderna e outra da Universidade de Oxford com o Serum Institute of India podem estar prontas para testes clínicos em dois ou três meses, enquanto a terceira, da IAVI, levará pelo menos sete meses.

Os dados disponíveis para essas vacinas candidatas variam; algumas não possuem dados de testes em animais, enquanto outras apresentaram resultados promissores em primatas não humanos, mas ainda não há material de grau clínico disponível para testes em humanos.

Um grupo de consultores independentes da OMS também identificou o antiviral oral obeldesivir como um candidato prioritário para desenvolvimento, que seria uma opção a ser oferecida aos contatos de casos confirmados e prováveis ​​à medida que o rastreamento de contatos se intensifica. Autoridades da OMS afirmaram que ele poderia estar disponível por meio de ensaios clínicos dentro de algumas semanas.

5. O risco é baixo, mesmo durante a Copa do Mundo

Doenças infecciosas são sempre uma preocupação em grandes aglomerações, incluindo a Copa do Mundo, que deve trazer milhões de viajantes para a América do Norte neste mês. O Ebola está dentro do escopo de possíveis ameaças para as quais as autoridades se prepararam, mas especialistas dizem que é improvável que represente uma ameaça.

Uma pessoa com Ebola que esteja doente o suficiente para ser contagiosa provavelmente não estará bem o suficiente para sair da cama, muito menos para comparecer a um evento esportivo. Muitos sintomas são óbvios: geralmente apresentam febre, vômitos e podem até apresentar sangramento.

Nesses eventos gigantescos, os riscos que você provavelmente encontrará são aqueles que todos conhecemos: calor, desidratação, insetos e outros vírus comuns que se espalham por toda parte durante o ano todo.

Os Estados Unidos coordenaram protocolos aeroportuários especiais para viajantes provenientes da área afetada pelo surto. Passageiros com destino aos EUA que estiveram na República Democrática do Congo, Uganda ou Sudão do Sul nos últimos 21 dias devem desembarcar em Atlanta, Houston, no Aeroporto Internacional John F. Kennedy, em Nova York, ou no Aeroporto Internacional Dulles, nos arredores de Washington, para passar por exames de saúde.

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O CDC também desenvolveu um painel de dados da Copa do Mundo e afirma possuir ferramentas capazes de avaliar o risco potencial de um surto e identificar padrões incomuns em dados de vigilância em tempo quase real.

No início deste mês, o Centro Nacional de Segurança e Resiliência em Saúde – uma iniciativa conjunta da Universidade de Georgetown e da MedStar Health – lançou o Centro de Operações de Segurança em Saúde, um núcleo independente e colaborativo para monitorar potenciais ameaças de doenças infecciosas. O centro distribuirá relatórios diários de situação para organizações e indivíduos, incluindo gestores de emergência hospitalar, autoridades de saúde estaduais e locais, agências federais e organizadores de torneios.

A ameaça do Ebola é rara, mas os líderes de saúde pública afirmam que responder a ela é a essência do seu trabalho. Agora, considerando a natureza das viagens globais e o fato de o vírus ter um período de incubação de até 21 dias, é possível que voltemos a ver pacientes com Ebola nos Estados Unidos.

O tratamento desses pacientes nos EUA não levou a uma epidemia na época, e é extremamente improvável que isso aconteça agora.

Existe um esforço global de saúde pública concebido para lidar com ameaças como esta. A melhor maneira de se proteger e proteger as pessoas ao seu redor de doenças como o Ebola é manter-se informado.



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