
O mercado brasileiro de ações continua desafiando os analistas. Após iniciar o ano embalado pelos dólares despejados no país pelos investidores estrangeiros que buscavam reduzir a exposição aos Estados Unidos, cuja economia segue cada vez mais as bruscas mudanças de humor de Donald Trump, o Ibovespa inverteu a direção e passou a acumular fortes quedas. A maior parte do recuo é atribuída ao desejo dos estrangeiros de realizar lucros e aplicar os recursos em papéis de empresas de tecnologia de outros países emergentes como a Coreia do Sul e Taiwan.
Outra parcela representa a reação do mercado à instabilidade geopolítica global alimentada pelas incertezas acerca da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, e do conflito entre a Rússia e a Ucrânia. O resultado é que, apenas em maio, os estrangeiros sacaram 15 bilhões de reais da bolsa brasileira. Trata-se do maior resgate mensal desde 2022. O desembarque contribuiu para uma queda de 7,2% do Ibovespa em maio.
As perdas se acentuam, quando se considera um período maior. Segundo a consultoria Elos Ayta, nos cinquenta pregões realizados de 14 de abril a 3 de junho, o principal índice da B3 acumulou um recuo de 14%. As perdas foram generalizadas. Das 305 companhias analisadas pela consultoria, apenas 34 apresentaram valorização no período. Entre as que mais subiram, a campeã foi a BradSaúde (SAUD3), criada a partir da reestruturação dos investimentos do Bradesco na área de saúde.
A base da companhia foi a Odontoprev, empresa de planos odontológicos que “assumiu a personalidade” da BradSaúde e passou a reunir as participações acionárias do banco no setor. O resultado foi o maior IPO reverso da história da bolsa brasileira – operação em que uma empresa de capital fechado compra outra já listada e herda seu direito de negociar ações no mercado.
As ações da BradSaúde estrearam na B3 em 5 de maio. De acordo com a Elos Ayta, a reestruturação elevou o valor de mercado da companhia de 8,7 bilhões de reais – em seu último dia como Odontoprev – para 37,4 bilhões em 03 de junho, já em sua nova roupagem.
A Gerdau (GGBR4) ficou em um distante segundo lugar ao elevar seu valor de 40,2 bilhões de reais para quase 45 bilhões no período. A alta reflete a posição privilegiada da siderúrgica em relação à política protecionista de Trump, que tem buscado meios de taxar as importações de parceiros comerciais como o Brasil, a Europa e outros países emergentes. Por operar usinas siderúrgicas nos Estados Unidos, a Gerdau consegue se blindar das investidas da Casa Branca.
Na outra ponta, a Petrobras (PETR3; PETR4) foi a companhia que mais se desvalorizou no período. A petrolífera perdeu 85 bilhões de reais em valor, passando de 651,6 bilhões de reais para 566,6 bilhões. O primeiro motivo são as já conhecidas ressalvas dos analistas em relação à política de preços da estatal, que tem evitado repassar as altas do petróleo aos preços internos para não pressionar a inflação e atrapalhar os planos de reeleição do presidente Lula.
Outra razão é a própria característica das ações da Petrobras. Sendo uma das blue chips da bolsa brasileira, os papéis são os preferidos pelos estrangeiros que desejam se posicionar no mercado de renda variável local com ativos de grande liquidez – isto é, fáceis de comprar e de vender. Por isso, em momentos de estresse do mercado ou quando desejam realizar lucros, os investidores estrangeiros conseguem vender rapidamente tais papéis. O mesmo raciocínio vale para as ações do Itaú (ITUB4), que registraram a segunda maior desvalorização da amostra analisada pela Elos Ayta – 78,6 bilhões de reais. Com isso, o banco encerrou o dia 3 de junho valendo 433,7 bilhões de reais.