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É um roteiro que o Brasil conhece de cor. Depois de breves surtos de crescimento, a economia perde fôlego, entra em marcha lenta e, não raro, retrocede. Foi assim em 2015, quando uma recessão profunda anulou parte dos avanços acumulados nos anos anteriores. Foi assim também na década de 1980, quando uma sucessão de crises enterrou de vez o chamado “milagre econômico” dos anos 1970. Essa alternância entre momentos de euforia e longos períodos de estagnação ajuda a explicar por que o país acumula, há quatro décadas, um desempenho medíocre em comparação com outras economias emergentes — e muito aquém de suas próprias ambições de prosperidade. Os sinais de que a história pode estar se repetindo já começam a aparecer. Desta vez, porém, a desaceleração é parcialmente mascarada pelo volumoso pacote de estímulos despejado na economia pelo governo Lula, numa tentativa de inflar diversas atividades em meio à corrida eleitoral.

Segundo dados do IBGE divulgados há alguns dias, o produto interno bruto cresceu 2% no acumulado de doze meses encerrados em março, após um período de quatro anos em que evoluiu, em média, perto de 3% ao ano. Trata-se do desempenho mais fraco de todo o terceiro mandato de Lula e o pior resultado desde 2021, quando o país ainda lidava com os efeitos da pandemia. O quadro só não é mais preocupante porque contou com dois importantes reforços. De um lado, a agropecuária, com uma nova safra recorde, cresceu 7% no período. De outro, o próprio setor público, cujo consumo aumentou 2,3% nas três esferas de governo. Sem esses dois motores, os números seriam mais decepcionantes. E pior: o quadro dificilmente mudará nos próximos meses. A maioria dos economistas projeta que o PIB crescerá cerca de 2% em 2026. A OCDE, uma organização de 38 países, estima apenas 1,6% de evolução para a economia do Brasil em 2026. Mais revelador ainda é que boa parte da expansão depende justamente dos estímulos distribuídos pelo governo.

Ao longo deste ano, Lula lançou ou ampliou mais de dez programas de crédito e subsídios, cujo impacto potencial sobre o consumo chega a 190 bilhões de reais, segundo cálculos da XP Investimentos. A corretora estima que essas medidas responderão por 1,4 ponto percentual dos 2% de crescimento previstos para o PIB. Em outras palavras: sem esse empurrão oficial, a economia avançaria mero 0,6%. “O problema é que são estímulos que não levam a um crescimento sustentável”, diz Sérgio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados. “Eles ajudam só no curto prazo. Em 2027, a desaceleração deve ficar mais clara.” As projeções para o ano que vem, de fato, já apontam para um desempenho em torno de 1,7%.

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A lista de incentivos derramados pelo governo em 2026 começa com a isenção do Imposto de Renda para trabalhadores que recebem até 5 000 reais por mês, em vigor desde janeiro, e se estende por uma sucessão de programas anunciados ao longo do ano. Entre eles estão a ampliação do Minha Casa, Minha Vida, uma nova rodada do Desenrola para renegociação de dívidas e até uma linha de crédito subsidiado destinada a motoristas de aplicativos. Em comum, todas as iniciativas colocam mais dinheiro em circulação e ajudam a mascarar a perda de dinamismo da economia. “Há até alguns dados bons nos primeiros meses, mas eles não interrompem o ciclo de desaceleração pelo qual estamos passando”, diz o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, sócio da Tendências Consultoria. “Não dá para dizer que a economia vai bem porque, se o objetivo do Brasil for virar um país rico, não é um crescimento de 2% que vai nos levar até lá.”

DESEQUILÍBRIO - Durigan: a expansão de gastos atrapalha o corte dos juros
DESEQUILÍBRIO - Durigan: a expansão de gastos atrapalha o corte dos juros (Washington Costa/MF/.)

A desaceleração da economia brasileira, ressalve-se, não pode ser revertida por programas de incentivo ao consumo. No curto prazo, pesam os juros elevados e o endividamento recorde de famílias e empresas, que reduzem o espaço para novos gastos e investimentos. A estratégia adotada pelo governo, portanto, esbarra em uma contradição: quanto mais recursos são injetados na economia, maior tende a ser a pressão sobre a inflação e, consequentemente, mais difícil se torna a tarefa de reduzir os juros. É esse o desafio que acompanha o ministro da Fazenda, Dario Durigan, obrigado a conciliar estímulos à economia e a necessidade de criar condições para flexibilizar a política monetária.

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Há uma explicação mais profunda para a dificuldade do país em escapar do ciclo de crescimento medíocre. O Brasil enfrenta há anos um limite baixo que os economistas chamam de PIB potencial — trata-se da velocidade máxima a que a economia consegue crescer sem gerar desequilíbrios relevantes. Esse teto é determinado por fatores como produtividade, qualificação da mão de obra, nível de investimento e qualidade da infraestrutura. Segundo estimativas do mercado e do próprio governo, o potencial gira justamente em torno de 2% ao ano. É possível crescer acima dessa marca por algum tempo, especialmente quando o consumo é estimulado por crédito ou gastos públicos. Mas o efeito costuma ser transitório. Quando a demanda anda mais rápido que a capacidade de produção, surgem pressões inflacionárias, os juros permanecem elevados e o endividamento aumenta. Mais cedo ou mais tarde, a conta chega. É por isso que os períodos de expansão no Brasil costumam ser curtos e frequentemente terminam em desaceleração ou recessão. “O Brasil é mais instável que os países desenvolvidos”, afirma Aloisio Campelo Junior, pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV) e integrante do Codace, um comitê responsável por datar os ciclos econômicos do país. “Temos recessões mais frequentes e, em geral, mais profundas.”

ARMADILHA - Favela do Moinho, em São Paulo: com crescimento baixo, país não aumenta seu nível de renda
ARMADILHA - Favela do Moinho, em São Paulo: com crescimento baixo, país não aumenta seu nível de renda (Eduardo Knapp/Folhapress/.)

Mudar esse roteiro exige o que o Brasil tem dificuldade de fazer há décadas: ampliar a capacidade de crescimento. Isso depende, sobretudo, de mais investimentos e de ganhos consistentes de eficiência. Nenhuma das duas frentes, porém, progride no ritmo necessário. “Nosso crescimento recente se deu contratando mais pessoas e com poucos ganhos de produtividade”, diz Silvia Matos, coordenadora do Observatório da Produtividade da FGV. “Agora que o desemprego está nas mínimas e não tem mais tanta gente para contratar, vamos crescer como?” A pergunta é pertinente. De 2020 a 2025, o ganho médio de produtividade da economia brasileira foi de apenas 0,3% ao ano, segundo a FGV. Os investimentos, por sua vez, avançaram um modesto 0,4% nos doze meses encerrados em março. Enquanto esses indicadores permanecerem estagnados, o Brasil seguirá condenado a crescer pouco, por mais que o governo gaste para dar uns empurrões.

Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998



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