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Desde o início do segundo mandato do presidente Donald Trump, em 2025, históricos carteis mexicanos passaram a integrar a incômoda lista de organizações terroristas internacionais, rol de que o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho também fazem parte desde sexta-feira, 5, em uma política da Casa Branca que, segundo o coordenador de projetos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública David Marques, levou à adaptação dos narcotraficantes, a operações secretas dos Estados Unidos e ao indiciamento de políticos na Justiça americana para responderem a processos como narcoterroristas. O resultado até o momento, diz Marques, é incerto, embora esteja claro que as medidas não diminuíram a violência nem a influência dos carteis no cotidiano do país.
“O México tem tentado navegar nessa ofensiva norte-americana com resultados parciais. Em alguns momentos parece que consegue dialogar, mas em outros tem sofrido níveis de interferência preocupantes”, diz.
Segundo ele, desde que os Estados Unidos se arvoraram em uma ofensiva contra o narcotráfico na região, entre os episódios de maior destaque estão:
- O indiciamento do governador de Sinaloa como narcoterrorista e o pedido para que seja extraditado
- A extradição, desde o governo de Manuel Andrés Lopez Obrador, de cerca de 160 mexicanos para os Estados Unidos para enfrentar processos em território estrangeiro
- Ações de inteligência da CIA em território mexicano sem diálogo prévio com o governo de Claudia Sheinbaum
Ao mesmo tempo, com o risco de terem ativos congelados desde que carteis foram designados como organizações terroristas internacionais, traficantes mudaram a forma de lidar com o volume de dinheiro movimentado com as atividades criminosas e diminuíram o uso do sistema financeiro tradicional.
David Marques explica que, no caso mexicano, eles passaram a utilizar dinheiro vivo, ouro e metais preciosos no fluxo financeiro, dificultando a rastreio de valores fruto de crimes. “Não houve um processo de enfraquecimento dessas organizações a partir da designação como terroristas internacionais, mas a amplitude de ações possíveis para os Estados Unidos atuarem engloba agora desde situações excepcionais, como a intervenção direta e unilateral que aconteceu na Venezuela, até essa situação mexicana [de operações secretas sem conhecimento prévio do México]”, diz.
Apesar da baixa efetividade prática na designação dos carteis mexicanos como terroristas, David Marques diz que a administração da mexicana Sheinbaum tem tentado realizar operações conjuntas com os Estados Unidos no combate ao narcotráfico, como a que levou à morte de Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como El Mencho, no início do ano passado. Na ocasião, informes dos serviços de inteligência dos Estados Unidos permitiram a policiais mexicanos localizar o líder do Cartel Jalisco Nueva Generación, que acabou morto.
Para o Brasil, as lições mexicanas – para o bem ou para o mal – ainda estão envoltas em um cenário de incerteza, diz Marques. Ele considera improvável, porém, que no curto prazo o país tenha operações secretas da CIA, como ocorreu com o México, mas ressaltou que o cenário “depende bastante do resultado das eleições e do nível de disposição do da administração federal brasileira em se engajar em algum tipo de transformação das relações bilaterais nessa área com os Estados Unidos”.
Ao contrário dos mexicanos, o Brasil não extradita seus nacionais, mas pode operar em parceria com os Estados Unidos para investigar, julgar e punir eventuais narcotraficantes.